O rock e seu papel histórico, social e cultural

A tríade “sexo, drogas e rock’n’roll” muito fez sentido principalmente entre as décadas de 60 e 70, quando a mistura revelava-se uma forma de rebeldia e exacerbação que se dava através do choque, da contravenção. Os jovens encontravam forças nas drogas e na expressão musical, principalmente no rock, vertente que foi a marca da juventude em um mundo abalado pelos resultados de uma grande guerra que dividiu o mundo em dois grandes blocos.  O rock tornou-se símbolo da juventude “moderna”, refletindo, inclusive, a hegemonia cultural dos Estados Unidos, tanto na cultura popular, quanto no estilo de vida (Hobsbawm, p. 320).

Por ter surgido da mistura de gêneros, entre eles o blues, soul music e, paralelamente, o funk, o rock acabou valorizando e projetando mundialmente a música negra em uma época da uma sociedade declaradamente segregacionista. Direta ou indiretamente, o novo gênero musical em muito colaborou com a luta de Martin Luther King, que atingia seu ápice na década de 60, pela igualdade entre negros e brancos. Os britânicos do Beatles, inclusive, recusaram-se a tocar para uma plateia segregada num show em 19651, nos Estados Unidos.

Não é a toa que o rock tornou-se uma das mais importantes formas de manifestação cultural naquele período e se estendeu pelas décadas seguintes.  Assim afirma o historiador Eric Hobsbawm:

A nova “autonomia” da juventude como uma camada social separada foi simbolizada por um fenômeno que, nessa escala, provavelmente não teve paralelo desde a era romântica do início do século XIX: o herói cuja vida e juventude acabavam juntas. Essa figura, antecipada na década de 1950 pelo astro de cinema James Dean, foi comum, talvez mesmo como um ideal típico, no que se tornou a expressão cultural característica da juventude – o rock. (HOBSBAWM, Eric. 1995, p. 318)

Juntamente com as drogas e o sexo deliberado (vide os bastidores de Woodstock2), o rock’n’roll era a identidade dos jovens que acabava levando uma vida de excessos, tanto entre o público quanto entre os próprios artistas, que encontram na tríade uma forma de rebelar-se contra a opressão e a pressão que pesavam sobre seus ombros. Nasceram então os grandes nomes do cenário roqueiro: Janis Joplin, Rolling Stones, The Beatles, Jimi Hendrix, The Doors, entre tantos outros que fizeram história.

Assim sendo, Sexo, drogas e rock’n’roll foi o resultado de uma explosão, da revolução social e cultural nesse período. Nas décadas seguintes, não mais visto apenas como forma de rebeldia ou fuga para “paz e amor”, o rock continuou cumprindo seu papel e se tornou uma importante ferramenta para manifestações e críticas principalmente políticas. O engajamento de astros do Rock em causas político-sociais tornou-se crescente. O clássico álbum The Wall (1979), do Pink Floyd, foi uma importante obra que fazia alusão direta à Guerra Fria. Não obstante, após a queda do Muro de Berlim, em 1989, Roger Waters, ex-líder da extinta banda, realizou um show histórico em Berlim em julho de 1990, representando com maestria a construção e queda do muro, tanto pelo conteúdo músicas quanto pela representação visual e teatral do espetáculo.  The Trial é o ápice do show, quando o refrão “Tear down the wall” é entoado por todos até a derrubada do muro cenográfico que foi construído ao longo de toda a apresentação.

Entre os artistas convidados para se apresentar no evento de Waters, estava o Scorpions, banda alemã cujos membros cresceram sob a forte influência dos efeitos de um dos países precursores da Segunda Guerra e dividido em duas Repúblicas. Herman Rarebell, ex-baterista da banda, afirma:

Fomos expostos ao monumento onipresente e onipotente que fora concebido, construído e consagrado para ser o símbolo definitivo da opressão, assim como um lembrete cruel da diferença entre o Oriente e o Ocidente, o Muro de Berlim. (RAREBELL, Herman. 2012, p. 14)

Wind of Change, do Scorpions, foi uma das grandes canções da década de 90, lançada no álbum Crazy World, em 1990. Foi sob influência dos “ventos de mudança,” que anunciavam o fim de uma era de bipolaridade mundial, após sua segunda visita à URSS, em 1989, que Klaus Meine, cantor e compositor do Scorpions, escreveu Wind of Change. Poucos meses depois, o muro caiu. A música representou o sentimento não só da Alemanha e da União Soviética, mas de todo o globo em relação ao que acontecia no mundo. A música Crossfire, do álbum Love at First Sting (1984), também foi uma música inspirada diretamente pela convivência com a Guerra Fria.

[…] mesmo antes de Wind of Change, eu escrevi músicas como Crossfire, na qual eu tentei descrever meus sentimentos sobre como é crescer entre aqueles poderosos blocos, a União Soviética e os Estados Unidos, o Oriente e o Ocidente. Então eu acho que quanto nós estivemos em Moscou, no Moscow Music Peace Festival… o Ozzy Osbourne e o Bon Jovi estiveram lá e voltaram para casa dizendo “Nós detonamos na União Soviética!”, mas para nós, que viemos da Alemanha, foi uma história muito mais emocional, por isso eu escrevi Wind of Change, pois sempre fui influenciado pelo modo que crescemos e o que vimos em nosso país, e também temíamos o confronto, o perigo quando os tanques americanos e os tanques soviéticos estavam frente a frente em Friedrichstraße, no Checkpoint Charlie, encarando uns aos outros em Berlim. Parecia que a próxima Guerra Mundial estava a alguns minutos de distância, quem quer que disparasse uma bala ali começaria a Guerra. (Klaus Meine, em entrevista ao site Scorpions Brazil.)

A música, bem como diversas outras formas de manifestação artística, portanto, sempre teve um papel fundamental na história, e o rock encontrou, nessa era dos extremos, o seu lugar. A última turnê de Roger Waters, como mesmo nome do disco The Wall, mostra que uma obra de décadas atrás nunca esteve tão atual. Suas apresentações no Brasil, em março e abril de 2012, trazendo à tona questões políticas atuais, como Sionista-Palestina, bem como sua clara militância a favor do Estado Palestino, mostram que, se o uso das drogas hoje já não é forma de rebeldia válida uma vez que não há mais o mesmo contexto das priscas eras, o rock continua sendo um meio válido, ainda que o gênero não esteja mais vivendo os seus anos de glória. Os tempos mudaram, saem as drogas, ficam o sexo e o rock’n’roll. Hoje, manifestar-se através da música, é arte, é consciência, mas drogar-se em nome da rebeldia, é assinar um atestado de estupidez e ignorância.

Colaboração: Bruno Rauber e Mailson Fiuza.

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Notas:

1. Em um documento assinado pelo empresário da banda, Brian Epstein, com exigências para o show no Cow Palace, em Daly City, no Estado americano da Califórnia, os Beatles deixavam claro que se recusavam a tocar diante de uma plateia segregada, mostrando seu claro posicionamento diante da política racial discriminatória dos Estados Unidos. O movimento pelos direitos civis, comandado por Martin Luther King, estava ganhando força.

2. Assista ao filme Aconteceu em Woodstock (2009), de Ang Lee.  

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Referências:

HOBSBAWM, Eric. A Revolução Cultural. In: A Era dos Extremos: O Breve século XX: 1914 – 1991.  São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

RAREBELL, Herman; KRIKORIAN, Michael. Wind of Change. In: Scorpions: Minha história em uma das maiores bandas de todos os tempos. São Paulo: Panda Books, 2012.

Scorpions Brazil fansite. SCORPIONS: Klaus Meine fala sobre a última grande turnê. Disponível em: <http://www.scorpionsbrazil.net/br/noticias.php?subaction=showfull&id=1358709163#ixzz2IY2ty02w>. Acesso em: 25 de janeiro de 2013.

BBC Brasil. Beatles se recusaram a tocar para plateia segregada nos EUA. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/09/110916_beatles_exigencias_bg.shtml>. Acesso em: 25 de janeiro de 2013.

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