Um Enforcamento Seguro

Era por volta de oito da noite quando a campainha tocou. Ele chegou falando alto, tinha um bigodinho preto mequetrefe, era baixinho e gorducho com o cabelo pintado. Não há com o que fazer comparações em relação à sua aparência, pois a comparação que eu faria é com um vendedor de seguros e é exatamente isso o que ele era. Já estava preparada para o que me seria apresentado, preferi não me estender muito e logo escolher o plano que me adequava. Não fosse minha experiência de já ter sido vendedora um dia (não de seguros obviamente, eu não desceria tão baixo) teria sido um pouco mais difícil me livrar de sua lábia.

Vendedores são criaturas abomináveis, piores que operadores de telemarketing. Um operador de telemarketing está ali por não ter mínima vocação para vendedor e dificilmente consegue te convencer de algo porque ainda não aprendeu a falar (se algum operador de telemarketing já te passou a perna, se mata, você é mais burro que ele), e para se livrar dele basta bater o telefone ou se fazer passar por um empregado cujo patrão saiu e você não sabe quando volta. Um vendedor não, vendedores são criaturas vindas do inferno treinados para te enganar e levar a sua alma. Em questão de segundos um vendedor consegue se passar por seu maior amigo da infância e faz parecer lindo aquela blusa tamanho P cujo decote exalta os seios fartos que, sem o sutiã, sentem o chão gelado.

Quando o vendedor não é seu melhor amigo, é a criatura mais antipática do planeta (me desculpe por interromper seu almoço frio de marmita atrás do balcão!) e não podemos nos livrar dele como fazemos com os operadores de telemarketing. Nem todas as lojas são como Americanas, C&A ou Renner. Lojas de departamento são ótimas, você mesmo escolhe o que quer levar, prova a roupa com o direito de ter a noção de que aquilo ficou ridículo e sem que um vendedor pentelho te jogue outras que vão ficar “maraaaaa” com aquela calça que você tinha escolhido, ou simplesmente levou para o provador porque o vendedor te empurrou. E então é só passar no caixa, pagar e tudo está resolvido, o único porém é que se você precisar de algum auxílio eles vão todos correr de você. A missão de cada Associado (denominação criativa para os trabalhadores que são pagos para perambular pela loja vestindo a camisa da empresa, não?) é dizer “É no outro corredor, senhor” ou “Procure outro associado, senhor, esse não é meu departamento”. Mas confesso que não me incomodam, que eles fiquem onde estão. Agora tente se livrar de um vendedor! Ou você sai da loja deixando seu salário ou sai puto porque não conseguiu levar o que queria.

Não gosto aquelas lojas que tem mais vendedor que cliente, eles formam um paredão na entrada que dá até medo. Nessas aí eu nem ouso entrar, o cliente mais assíduo é uma mosca varejeira que vai todo dia pousar no pão meio comido que um dos vendedores deixou na mesinha perto da porta de entrada para o estoque, porque ele não teve tempo de almoçar ou estava desesperado pensando que o cliente a quem ele ia destinar a venda que lhe concederia o bônus de funcionário do mês e a maior comissão da equipe, apareceria bem na hora que ele estivesse almoçando, era melhor passar fome. A situação é desesperadora, fuja dessas lojas o máximo que puder, pois quando você passar pela porta, eles te agarrarão com tanta voracidade que te farão tirar até as suas calças.

Mas não há pior espécie de vendedor que vendedor de seguro. Não há escapatória, ou você encara o belzebu picareta ou fica sem o seguro. O pior é que comprar um seguro é como dar o nó na própria corda que vai te enforcar mais tarde, mas pelo menos você já sabe como vai morrer e não será pego de surpresa futuramente. Um vendedor de seguros não te deixa pensar, não permitirá que você conclua uma frase inteira e você nem vai se dar conta disso.  Ele está treinado para que todas as falas decoradas do manual “Como vender Seguro de Geladeira para um Esquimó” pareçam respostas a todas as suas dúvidas. Se você perguntar qual é a cura da AIDS e a solução para a fome na África a um vendedor de seguros, ele vai te responder, a resposta pode não servir, mas você vai ficar satisfeito.

E ali estava ele, com sua pastinha preta, já sentado e espalhando todos os papéis sobre a mesa, com um copo de água gelado oferecido em um pires (para parecer chique!) e tentando despejar sua lábia toda em cima de mim, eu desviava de cada palavra como o Neo desviava de uma bala quando estava na Matrix. As perguntas que eu fazia eram puramente técnicas e as conversas que surgiam era pior do que aquelas de elevador, quando você entra nele e só tem uma tia com uma sacola de compras em mãos, comentando como o quilo da cebola estava caro. Mas no fim das contas deu tudo certo e consegui dar o nó na minha corda, logo poderei me enforcar com todos os benefícios e segurança que só a Amil pode oferecer.

2 Respostas to “Um Enforcamento Seguro”

  1. marinices Says:

    hahahahahahah adorei

  2. hahaha robs anti-vendedores😀

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