O valor da Subliteratura

Quando se fala em leitura logo vem aquela imagem de um intelectual devorando livros de filosofia, teologia, política, alta literatura e as mais variadas ciências humanas. Não há de se desmerecer, no entanto, os livros da então marginalizada subliteratura. O entretenimento é essencial na vida do ser humano, pode ele variar de uma partida de dominó, do cinema pipoca e aquele dito “cult” até a famigerada televisão. Quanto a este, alguns optam pelo futebol, outros enveredam-se pelo caminho das novelas; ambos os quais muitas vezes são abraçados por aqueles que se esquecem de todo o resto, mas, apesar das controvérsias, tais categorias podem ser enquadradas em uma categoria artística, assunto que, aliás, seria pauta para outra intensa discussão.

Não obstante, alguns preferem se deliciar em uma envolvente viagem através do mundo dos bruxos, da fantasia, dos vampiros, da magia e dentre tantas outras aventuras por meio de uma gostosa e agradável leitura. Há ainda de se levar em conta que, para escrever uma série de livros de histórias fantasiosas, é preciso, no mínimo, exercer domínio sobre a linguagem escrita e ter uma capacidade imaginativa e criativa, além de muitas vezes fazer paralelo reflexivo análogo à realidade; características não inerentes a todo e qualquer mero mortal.

Neil Gaiman, escritor britânico, escreveu em um de seus contos, usando de metalinguagem, a história de um autor que trabalhava em seu próximo livro e redigia a respeito de sua realidade, que incluía monstros, animais falantes, casarões e maldições de família e, de repente, viu-se preso a uma rotina monótona e resolveu então escrever sobre fantasias: a nossa conhecida realidade.

“Os temas-padrão da fantasia passaram por sua mente: automóveis, acionistas, funcionários, donas de casa e policiais, conselheiros sentimentais e comerciais de sabonete, impostos de renda e restaurantes baratos, revistas, cartões de crédito, iluminação pública e computadores… […] Tudo escapismo, é verdade […] mas o impulso mais nobre da humanidade não é o anseio pela liberdade, o ímpeto de escapar?”

A ideia da inversão dos conceitos usada por Gaiman para descrever aquilo que muitas vezes precisamos fazer é muito interessante: escapar para um mundo dos sonhos e nele encontrar a emoção e aventura das quais muitas vezes somos privados, sem que com isso deixemos, necessariamente,  de perceber elementos comparativos e análogos ao mundo no qual vivemos.

É no mínimo curioso, inclusive, que as escolas e educadores não adotem tais livros para atrair e introduzir as crianças ao mundo literário e então despertar seu interesse para o fantástico mundo da leitura. É claro que a importância da leitura de obras mestres da nossa literatura é inegável, uma vez que por meio delas também podemos conhecer e compreender as nossas origens; mas, em contrapartida, há de se concluir que enfiar tais obras goela a baixo, transformando a leitura em mera obrigação ao invés de fazer dela uma forma prazerosa de converter informação em conteúdo e conhecimento, não é uma estratégia muito eficiente.

Que venha então Machado de Assis, Eça de Queiróz e todas as leituras obrigatórias do vestibular; exploremos Marx e Nietzsche e louvemos Fernando Pessoa, Willian Shakespeare e George Orwell. Mas, ampliando o mundo regido pela ditadura da boa literatura e entrando em um paralelo comparativo, não esqueçamo-nos de que além do violino, do piano, da música clássica e erudita, existe o cavaquinho, o pandeiro, o samba e o chorinho, bem como o baixo, a guitarra, a bateria e o bom e velho Rock’n’Roll.

Referência:

GAIMAN, Neil. Coisas Frágeis 2. São Paulo: Conrad, 2010. 166 p.

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