Até a última gota (de água ou de paciência)

Há algum tempo se espalhou no Facebook um vídeo, encabeçado por atores globais, que convoca todos a se juntarem à campanha “Gota D’água” para impedir a construção da usina de Belo Monte.

Como resposta, estudantes da Unicamp elaboraram um outro vídeo, intitulado “Tempestade em Copo D’água?”

O discurso levantado por esses alunos, apesar expor o outro lado da moeda, é também tendencioso, aliás, como costuma ser todo discurso, afinal, a ideia ao se expor uma ideia é, normalmente, convencer o eleitorado.

Ok, o conceito do projeto Gota D’Água é falacioso e suspeito, mas este último também não convence por completo. É claro que não existe fonte totalmente limpa de energia, nem mesmo as tão aclamadas energia eólica ou solar, e, no modo de vida que levamos hoje, a demanda por eletricidade é cada vez maior; mas a quem essa usina beneficiará? Para quem de fato vai todo o recurso elétrico gerado? Será o dinheiro público empregado em uma usina que atenderá ao país ou a interesses privados, como a produção energia para a obtenção do alumínio? Bom, mas isso parece certo, vai movimentar a economia, legal! É ótimo para o país, não é? Claro, usar o dinheiro público para fazer uma usina nacional que atenderá essencialmente a interesses privados é realmente muito justo.

E só porque uma quantia em dinheiro, muito maior do que o orçamento da obra em questão, é enfiada em nobres cuecas sem o menor pudor e o desmatamento da floresta pela construção de Belo Monte é pífio perto daqueles acarretados por outras práticas, a execução desse “belíssimo projeto” se justifica? Isso é quase mesmo que dizer que um político que rouba, mas faz, pode continuar no poder porque outros também roubam, entretanto, nada fazem! Ora, se o dever de um político é servir ao Estado e à Nação de forma íntegra e o nosso dever é justamente cobrar de nossos representantes essa conduta, é também dever de todos pensar na melhor solução, tanto econômica quanto ambiental, ao desenvolver qualquer projeto nacional, e não justificar um erro ao apontar para erros maiores.

Sobre as fontes alternativas de energia, é claro que seria insano pensar em usinas eólicas ou solares para sustentar a demanda energética de um país tão grande tanto econômica quanto territorialmente, mas poderia ser o caso de pensá-las como meio de produzir ao menos a energia que aquece nosso chuveiro, uma vez que o grande vilão nas campanhas ecológicas de economia elétrica é justamente o próprio.

Mas o Brasil é um país emergente, já é uma das economias mais fortes do mundo, integramos o G20, fazemos parte dos BRICS, precisamos de energia para crescer! Vamos então participar desse projeto que vai alavancar ainda mais o crescimento! Só se esqueceram de mencionar que todo esse lucro é sempre compartilhado entre o rei e os amigos do rei.

Coloquemos os fatos em pratos limpos, afirmar que Belo Monte é um belíssimo projeto é um tanto quanto exagerado; ele pode não ser o monstro de sete cabeças que pintam os ambientalistas, mas está longe de ser um panda fofinho. Se por um lado os atores da Globo estão exagerando e distorcendo os reais fatos, o discurso desses estudantes está um tanto quanto ufanista, eles estão praticamente nos convocando a integrar uma massa de “Policarpos Quaresma¹”.

Brasil, esse é um país que vai pra frente! Enquanto isso, a população fica para trás. A eles, a Champagne; a nós, o guaraná Dolly.

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1. Referência à obra Triste Fim de Policarpo Quaresma, romance folhetinesco brasileiro pré-moderno, de autoria de Lima Barreto.

3 Respostas to “Até a última gota (de água ou de paciência)”

  1. O vídeo gravado pelos aluninhos da Unicamp consegue ser ainda mais simplório que o produzido pelos ativistinhas ambientais com garotos propaganda oriundos da emissora que desmanda no país. Não posso dizer que me causou qualquer espanto, ver a turba de arautos do apocalipse ecológico sair em desabalada carreira compartilhando e colocando a impressão digital na petição jogada no Facebobo contra a construção da tal hidrelétrica, sem qualquer questionamento em relação aos interesses desse movimento. Naturalmente, me falta a ingenuidade necessária para acreditar que exista qualquer obra nesta pátria amarga idolatrada que não esteja atrelada a todos os tipos de ilicitudes e corrupções ativas, passivas e nativas. Entretanto, a história elucida melhor que minhas paranóias que as causas sociais da moda possuem na prática verdadeira aversão ao altruísmo que defendem em tese. Hoje se vislumbra no discurso ambiental o totalitarismo fascista do século XXI, recheado de verdades incontestes e fogueiras inquisidoras para se atirar as bruxas das idéias progressistas e com um séquito sedento por demonstrar disposição para seguir cegamente às bravatas e palavras de ordem em nome de tão bela iniciativa. Apenas não entendi ainda o que aqueles modelos tão envolvidos com a questão ambiental fazem em comerciais de bancos, automóveis, petroquímicas, latícinios, calçados, eletrodomésticos, telefonia e prestando serviços para uma gigantesca corporação midiática. Alguma coisa parece não bater nessa conta. Talvez a ordem as parcelas esteja alterando o produto, sei lá.

    Mas concordo com você, um erro não justifica o outro. Não conheço a fundo o projeto da tal usina, mesmo porque, toda a informação disponível limita-se à retórica oficial ou aos ativismosinhos de conveniência. Entretanto, em nenhum momento os contendores, por desconhecimento, interesse ou leviandade, aludem ao uso do setores de Minas e Energia como moeda de troca eleitoreira e grande causa do colapso da matriz energética brasileira, pois é sabido que o modelo implantado no Brasil foi construído para funcionar vitaliciamente, necessitando apenas de manutenção regular. Todavia, desde a suposta abertura política, os técnicos e conhecedores do sistema passaram a ser substituídos por correligionários incompetentes, para comportar favores e clientelismos partidários. É no mínimo suspeito que a preocupação do tal Água Parada ou sejá como for o nome dessa chatice, não tenha atentado para esse detalhe, que por si só já justificaria a não construção de mais nenhuma hidrelétrica, e não apenas da Belo Monte, independentemente do tão endeusado crescimento econômico. Será que algum dos encabeçadores desse movimento ocupa cargo de confiança em algum Ministério?

    Considerando hipoteticamente que essa obra seja de fato necessária e sua construção inevitável, a gritaria feita pelos grupinho Copo D’Água só tende a servir aos interesses das próprias corporações envolvidas na fraude licitatória, dando-lhes mais prazo e mais subsídios para incluir no custo da obra. E como sempre, a retórica não passa de meio panfletário para se chegar ao palanque.

  2. Roberta Forster Says:

    Li um comentário a respeito desses dois vídeos que é o mais simples e o que melhor resume a história toda: “tenho a impressão de estar no meio de um tiroteio de estrume.”

    • “O Fim está próximo!”, que soem as trombetas messiânicas das Cruzadas contra os Knights In Satan Service. O passo seguinte é, ao invés de exterminar sionistas, mandar para os campos de concentração quem toma banho com chuveiro elétrico.

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