A macromolécula do tempo

Falar sobre o presente não é lá muito fácil, é um assunto recorrente literatura, na poesia, em textos de análises filosóficas, mas definir o que é presente – tão forte na lírica de Gregório de Matos, do tempo que “trota a toda ligeireza / e imprime em toda a flor sua pisada” – não é tão simples quanto faz parecer o senso comum. O significado¹ de presente é muito mais profundo do que o seu significante² pode mostrar: a massa amorfa³ que o circunda abrange uma esfera que vai muito além do próprio signo4.

O presente é uma fagulha, a unidade mínima – partícula imensurável – do tempo e do espaço que, devido à sua efemeridade, tornar-se-á passado tão logo se mencione ou reflita sobre ela. Um conjunto dessas partículas é o que se poderia chamar de momento: uma macromolécula composta por essas unidades mínimas, resultando no que é visível e/ou perceptível aos outros sentidos, mas que se esvai num piscar de olhos.

Um momento pode ser um bocejo, um passo, um grito, um abraço, um beijo, um copo de cerveja. Pode ser uma rajada de vento, uma divagação, uma conversa, uma troca de olhares ou um descompasso no coração. Momento é tudo aquilo que vivemos, e, para torná-lo marcante, depender-se-á exclusivamente do sopro sobre uma única partícula que determinará o desencadeamento de tudo que vier pela frente: um momento que, como qualquer outro, será diferente de todos.

Os momentos não são perdidos, são guiados, transformados. O que se perde são as oportunidades por eles geradas; estas dependem das escolhas: uma mudança na disposição das partículas pode transformar um momento e, então, uma oportunidade ou se vai ou se cria. As oportunidades? Não, elas não aparecem, são criadas. Perdê-las é simplesmente uma questão de dormir no ponto ou piscar os olhos no momento errado.

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1 e 2 Princípio linguístico saussureano no qual  significante é a imagem acústica (neste caso, o som emitido ao se pronunciar a palavra) e significado é o conceito a ele atribuído.  

3 Segundo Saussure, a massa amorfa é uma ideia nebulosa, o pensamento em si, onde nada é delimitado nem preestabelecido antes do aparecimento da língua.

4 União de um conceito (significado) a uma imagem acústica (significante).

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