Brainstorm da morte

A mortalidade é algo difícil de encarar. “Aquilo que não nos mata, nos fortalece.” Pode até ser, mas o que nos mata nos mata, e isso é dureza… O que é preciso fazer para a vida ter sentido? 

 Neil Gaiman, Sinal e Ruído.

Aquilo que acontece de acordo com o esperado deveria ser chamado de utopia, mas não é, porque a utopia, de fato, está em um plano além das possibilidades físicas, e nada acontece de acordo com o esperado. Esperar, então, é algo que se faz no plano das ideias: espera-se atingir algo que nunca será atingido, não da forma como é projetada mental e emocionalmente. Todos esperamos a morte. Não se sabe como, quando e nem onde, mas a ela chegará.  Se virá em cima de um cavalo, dentro de um capuz preto e empunhando uma foice, se é feia, se é bela, se será grandiosa ou apenas um beijo silencioso no meio da noite, no início da manhã ou ao longo do dia, não sabemos. Mas todos esperamos a morte. Esperamos, não ansiamos. Mas isso vai de cada um, alguns anseiam pela morte. A morte pode ser uma ótima fuga, ou talvez a sentença para uma prisão perpétua. A vida também pode ser uma fuga para a morte. Aliás, morte é vida, todos sabem que sim. É preciso que haja a morte para o equilíbrio da vida, ou ela acaba. Sempre foi assim. Essa é uma das poucas coisas que não mudam, sempre foi e sempre será assim. Algumas pessoas acreditam que outras coisas não mudam, mas não é verdade. Tudo, ou quase tudo, sempre muda. Até a morte muda. Antes morríamos muito cedo, agora morremos mais tarde; temos a ciência auxiliando nisso. Um dia ela vai descobrir um jeito de vivermos por tanto tempo que vamos ficar loucos. As pessoas não se aguentam por muito tempo. Em média vivemos menos de 100 anos e já estamos nos matando. Nós vamos passar dos 100, um dia vamos. Alguns já passaram, mas não devem aguentar muito. O que quero dizer é que nós ainda vamos ser jovens aos 100 anos. Os 200 serão os novos 80. Alguns cruzarão essa linha, outros morrerão antes. Mas seremos velhinhos aos 200 anos. E continuaremos nos matando, prolongando as desgraças humanas. Ou talvez tudo seja diferente, quem sabe? Nós vamos viver mais, teremos mais temo para aprender sobre o amor. Pode até ser que ele se revele e deixe de ser essa forma abstrata que aparece nos livros, na prosa, na poesia. Talvez caia a máscara cristã que o circunda e descubra-se que o amor é universal e, quem sabe, um Elemental. E aí paramos de nos matar, encontremos a paz. Mas, sem a guerra, não existirá paz. Não há no mundo senão diferenças, ou algo assim. Acho que estou deturpando Saussure. De qualquer forma, é a partir das diferenças que se sobressaem os significados. Sabemos o significado de paz porque conhecemos a guerra. Haverá sentido em um mundo sem dicotomias? Todos esperamos a morte, deixo essa pergunta aos meus descendentes.

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