O passado que não era seu

Naquela noite ela foi dormir cedo, fechou os olhos exaustos e adormeceu profundamente. Pouco tempo depois, ou muito tempo depois – sem a mínima noção de tempo ou espaço – abriu os olhos, tudo parecia meio desfocado, piscou algumas vezes tentando ver com nitidez, o que não ajudou muito, parecia-lhe que seus olhos enxergavam dentro da água escura com alguma meia luz indicando algumas formas. Tudo estava desconexo.

Decidiu se levantar, tirou seu cobertor, que parecia mais pesado que o comum, e quis descobrir onde estava. “Mas é claro que estou em casa” pensou “Devo estar com algum problema na visão, meu Deus! Será que…” foi então que, como uma maquina fotográfica automática, seus olhos buscavam incessantemente o foco até que o encontrasse e ela se percebeu em um corredor iluminado por algumas velas afixadas na parede, algumas apagadas. “Eu já vi um corredor desses em um filme medieval… ah! Claro, estou sonhando!” concluiu, e seguiu caminhando através do estranho caminho. Ela provavelmente estava dentro de alguma passagem subterrânea de um castelo, daquelas que levam para salas secretas ou rotas de fuga.

Ela via coisas jogadas pelo chão, “Que sonho mais estranho…” e continuava a caminhar. No corredor encontravam-se objetos que não pareciam pertencer àquele ambiente tão antigo, ela viu um mp3 player, alguns CD’s jogados e muito riscados, alguns estavam quebrados. Havia também livros, muitos livros, mas não daqueles escritos à mão e costurados com capa de couro, eram edições modernas e impressas por editoras como Conrad e Companhia das Letras: entre os livros estavam contos de horror, ficção científica, histórias em quadrinhos e romances. Olhou para tudo aquilo com estranheza. Viu fotos jogadas que não reconheceu, algumas com imagens de pessoas felizes reunidas, outras estavam rasgadas, parecia faltar alguém. Observou algumas televisões com imagens distorcidas de rostos estranhos e eventos que não lhe eram familiares.

Durante o percurso, começaram a aparecer portas pela parede, algumas pequenas, outras grandes. Dentro das que estavam abertas ela conseguia ver coisas lindas, imagens de cachoeiras, bibliotecas e muitos, muitos flashes de shows rock, cada um acontecendo em uma porta diferente. E se voltasse para uma porta anterior, era possível ver pedaços do show acontecerem de novo, ela conseguia visualizá-lo através de narrações feitas por uma voz muito doce.  Mas uma grande e considerável parte das portas estava lacrada com blocos de pedra, era impossível saber o que tinha ali. “O que será que tem por trás dessas pedras? Eu gostaria muito de entrar…” e então, quase que instantaneamente, ouviu uma voz suave “Essas memórias não lhe pertencem”, a voz era tão suave e tão distante que ela não pode ter a certeza do que ouviu, e continuou a andar e observar tudo aquilo com muita atenção.

Após algumas horas de caminhada, no meio das portas lacradas, encontrou uma que parecia ter sido recentemente arrombada, estava escuro, um completo breu, não era possível enxergar um milímetro diante dos olhos, e mesmo assim ela entrou. Aquela voz, que agora estava forte, voltou a se pronunciar “Você está entrando em um passado que não é seu” e, ignorando o aviso, continuou. Tropeçou em alguma coisa, esbarrou em algum tipo de móvel, derrubou-o e ela caiu no chão, em cima de algo que acabara de se estilhaçar. Suas mãos estavam sangrando, ela pode sentir o quente escorrer por entre seus dedos. Saiu pela porta, pegou uma das velas do corredor e novamente entrou “Eu podia ter feito isso antes…” e então voltou a olhar para frente, procurando os restos daquilo que havia se quebrado.

Era um porta-retrato com o vidro totalmente estilhaçado pela queda e, ao redor, flores murchas e pedaços de cartas rasgadas. Pegou o porta-retrato que estava virado para baixo, tirou os restos de vidro dele e ficou olhando para ele por alguns instantes. “Está vazio…” disse a si mesma em voz baixa. Repentinamente o objeto foi retirado de suas mãos. Ela olhou assustada e viu diante de si um homem que não se mostrava totalmente à luz da vela, mas percebia-se que ele vestia uma armadura e uma capa preta, era alto e imponente. “Isto não diz respeito a você”, disse o misterioso homem. Era a mesma voz que ouvira antes nas salas dos flashes de shows e no corredor. Ela o olhou encantada, queria falar-lhe, mas as palavras sumiram, tocou-lhe então a mão e fitaram-se por alguns segundos, houve um rápido momento de reconhecimento mútuo e, então, ele desviou o olhar, deixou o porta-retrato cair de suas mãos e cerrou os olhos dela suavemente com seus dedos. “Isso não diz respeito a você… “ repetiu, “não diz…” suspirou. Beijou-lhe a face, ela abriu os olhos e saiu pela porta por onde entrou, voltou ao corredor, devolveu a vela ao seu lugar e, quando olhou para trás, a porta estava lacrada. “Agora eu preciso acordar”, sentou e esperou. Cansada de esperar, adormeceu. Acordou com o alerta vibratório do celular. Olhou à sua volta até reconhecer onde estava. “Que coisa mais clichê”, pensou, “ter um sonho, acreditar que é um sonho mesmo, acordar e então perceber que não era… bom, preciso de curativo para as minhas mãos.”

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