Desbarrancados

Era um dia normal, as pessoas dirigiam seus carros, olhavam seus relógios e ansiavam pela volta para casa. Aí os carros pararam, inclusive o meu. Peguei meu celular para olhar as horas e ele estava desligado. Nenhum carro se movia, e não era por causa do trânsito. Que droga! Eu já tinha sacado o que acontecera, só não queria acreditar. Pouco a pouco as pessoas foram saindo de seus carros e alguns, revoltados, atiravam seus celulares longe, praguejando. “Vamos embora daqui, gente”, disse eu para aqueles que estavam ao meu redor, “sendo otimista, não restará nada num raio de uns 30 km de onde ela caiu… ao menos não é possível avistar o cogumelo, o que deve nos dar alguma vantagem”, prossegui.

Alguns poucos me ouviram, os outros continuavam tentando religar seus carros e se recusavam a deixá-los para trás. Eu simplesmente tranquei a porta do meu por hábito e levei as chaves comigo. Algumas pessoas começaram a cair, e eu fiquei com medo, muito medo, apesar de minha aparente calma. Eu e os poucos que me acompanharam chegamos a um barranco, não havia nada a perder, a radiação parecia se espalhar e resolvemos descê-lo antes que ela nos abatesse completamente. Era tão íngreme e escorregadio que despencamos, acho que demorou pelo menos uma hora escorregando, surpreende-me que tenhamos chegado vivos até ali. De qualquer forma nada tivemos a perder, a essa hora já teríamos morrido se tivéssemos ficado para trás.

Chegamos a uma mata fechada e percebi que meus olhos ardiam; alguns de meus companheiros já não podiam mais ver. Avistamos uma casa com a porta entreaberta. “Seja lá quem for o dono desta casa, parece tê-la abandonado” A cama estava no quintal e, exaustos, alguns se debruçaram nela e por ali ficaram. Eu resolvi explorar o interior da casa, se era para esperar algum resgate, que fosse com algum conforto. Foi quando percebi que o chuveiro estava ligado e alguém cantava lá dentro. Voltei para o quintal e disse:

 – Acho que não podemos ficar aqui, o dono parece estar lá dentro.

– E que alternativa temos – retrucou alguém cujo rosto não identifiquei.

– Não sei, mas a casa não é nossa.

– Quando não se tem nada a perder, por tudo se pode lutar. Vamos ficar.

Eu sabia que ele estava certo. Morreríamos todos, cedo ou tarde. E, enquanto o proprietário misterioso continuava a cantar no chuveiro, resolvi abrir a porta da frente da casa. Deparei-me com um condomínio fechado e avistei outras casas iguais à que estávamos. Crianças brincavam na rua e pareciam não desconfiar do que havia acontecido. Tornei a fechá-la. Na sala, meus companheiros me observavam, colocando a mesa para jantar. Eu já nem me lembrava por que estava ali, nem como eu havia chegado, mas sem dúvida, aquele era meu lar. Não havia mais ninguém tomando banho. A imagem à minha frente se esvaiu, tudo ficou branco, de repente preto. Acordei confusa.

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