O Facebook e o Lugar Comum

Senso comum é todo e qualquer conhecimento, com origem em práticas ou experiências sociais, continuamente propagado, sendo aceito pela maioria e questionado por poucos. Sabe-se porque se sabe, porque, oras, todo mundo sabe. É confortável acomodar-se nesse lugar comum, questionar dá um pouco mais de trabalho. O mais intrigante é que até algo que um dia foi questionamento a um senso comum, pode acabar virando outro, instaurando-se nesse lugar de sensos tão comumente aceitos. Isso pode se dar, inclusive, pela simples e pura análise de fatos e posterior conclusão por silogismo.

Na questão política, é senso comum apontar o dedo para a corrupção, dizer que político é tudo igual e reclamar do ônus que isso causa à população. Há, no entanto, o questionamento deste comportamento, dizendo que não se tem o direito de reclamar, uma vez que é de responsabilidade popular a escolha de seus representantes através do voto. Silogisticamente, temos: a população escolhe o seu governante, dessa forma, aquele que conquistou o poder só o fez porque os eleitores permitiram, logo a culpa é da população e não dos políticos.  Entretanto, essa conclusão puramente lógica, baseada em duas premissas, também se tornou mais um conhecimento amplamente propagado e pouco questionado. Para um onda de reclamações sem qualquer ação ou reação existe uma oposição simples e sem aprofundamento sobre o assunto. É fácil observar esse comportamento no Facebook; as redes sociais facilitaram, e muito, a propagação em massa de ideias prontas e encaixadas no lugar comum.

Sair do desse básico dá um pouco de trabalho, ele é a porta de mais fácil acesso à zona de conforto. O ato de abrir outras portas exige um esforço de análise, que pede mais do que apenas um clique no botão “compartilhar”. O primeiro passo seria, talvez, além de usar o simples “compartilhar”, passar também a comentar, ou compartilhar comentando, ou, ainda, simplesmente ter um pouco mais de critério nos compartilhamentos. O ato de comentar não serve para simplesmente concordar ou discordar, mas para expor alguma ideia, discutir, complementar ou divergir daquilo que foi exposto. Essa poderia ser a forma mais construtiva de troca e interação no mundo virtual, fazendo jus à poderosa ferramenta que é o Facebook, tão mal visto por alguns devido ao seu mau uso por outros.

No caso do exemplo citado – no qual podemos observar as diversas imagens criadas e propagadas na rede social para divulgar uma mesma ideia não muito profunda sobre o comportamento da população em relação à corrupção, em oposição àquelas que apontam para este problema – não é senso comum questionar se o sistema eletivo é realmente válido e funcional para resolver o problema da corrupção. O cidadão que votou em outro candidato que não o que está no poder, poderia então reclamar deste? Não se leva consideração o fato de que, muito mais do que o ato de votar, o comportamento social é, em grande parte, responsável pelo problema, afinal, os políticos saem dessa sociedade e são, portanto, um reflexo dela.

A acomodação no lugar comum ocorre não somente em relação às questões políticas, mas em relação a qualquer informação compartilhada em massa: conteúdos sem fontes checadas, frases ou textos com falsas atribuições de autor, entre tantas outras formas de usar um dedo para clicar sem precisar pensar a respeito de qualquer coisa.

Diz-se que é preciso ter “bom senso” para usar o Facebook, mas a expressão “bom senso” dá margem a diversas interpretações capazes de gerar uma tese para iniciação científica, ou quem sabe mestrado ou doutorado. Portanto, devido à falta de uma definição específica para “bom senso”, vale então dizer que, para usar o Facebook em sua máxima eficiência, não é preciso ter apenas bom senso, é preciso sair do lugar comum, é preciso o senso de discernimento.

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