Valores (não tão) humanos

Muitos que vivem merecem morrer. E alguns, que merecem viver, morrem. Você pode dar-lhes a vida? Então, não seja tão ávido para condenar à morte em nome da justiça[…]

(Gandalf em O Senhor dos Anéis) J. R. R . Tolkien

Há alguns dias li a notícia sobre a morte de uma pessoa a qual não me era desconhecida. Não se pode dizer que éramos amigos, mas conversávamos, vez outra, rapidamente, conversávamos. Ora falando bobagens, ora resolvendo assuntos de trabalho e, às vezes, até me oferecia carona para casa. Nada demais, apenas mais uma daquelas pessoas do expediente de trabalho que faziam parte do dia a dia; não me despertou grandes afeições, mas, tampouco, merecia meu desprezo. Não me interessava saber os meios nos quais ele estava envolvido. Era mais um vendido? Outro corrupto? talvez, mas ainda assim, uma pessoa a qual eu via sorrir e a ele eu retribuía o sorriso e o bom dia de cada dia. Para alguns, apenas mais uma notícia de jornal, para outros, mais um que já foi tarde. Para mim, a sensação, incômoda, foi um pouco mais humana do que isso.

Houve um assassinato, uma execução. Queima de arquivo? Talvez. Não há provas. Mas não é preciso ser muito esperto para saber que ele estava envolvido com algo que não deveria estar e pagou um preço muito alto por isso, um tiro que o derrubou e outro que terminou o serviço quando ele, já quase sem vida, jazia no chão. Uma morte merecida? Eu não ousaria julgar, vivemos no limite entre o bem e o mal e, muitas vezes, esses dois opostos se misturam, convivem dentro das coerções sociais. Quem já assistiu Crash – No Limite, é capaz de entender do que estou falando.

O mundo não é dicotômico, tampouco as pessoas o são. E aquela, que agora jaz embaixo da terra, não era uma exceção. Se por um lado havia um homem envolvido em questões políticas, corruptas, que vendeu sua alma, por outro lado havia outro homem coexistindo com aquele; um marido, pai de família, amigo, bebedor de cerveja. Era, enfim, um ser humano do qual não se conhece as razões que o levou a envolver-se com o que não devia, e que deixou para trás aqueles aos quais ele era caro.

Não, sua condição de pai, marido e amigo não o eximia de qualquer um de seus possíveis desvios de conduta. Mas não está em minhas mãos, nem na de ninguém, julgar o destino da vida ou morte de um homem o qual não era apenas mais um que se estacava exclusivamente no pólo negativo da dicotomia bem versus mal. Sua vida valia mais que um silêncio forçado. Se ele tinha que pagar por alguma coisa, que não fosse, necessariamente, com a própria vida. E, se ele buscou a própria morte, resta-nos lamentar humanamente a sua escolha, e não vibrar com ela.

Mas era mais uma notícia de jornal, a ninguém interessa o que ele talvez soubesse, menos interessante ainda é a investigação para descobrir quem de fato queria vê-lo silenciado. Afinal, é mais um que já foi tarde, o resto não conta. Enquanto outros continuarão a ser silenciados, as nossas vidas seguem seu rumo em um completo silêncio resignado.

Descanse em paz, Orlando.

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