O assassinato de Lewis Carroll

Era noite e chovia muito, o clima estava propício para reflexões profundas e depressivas. Ela então entrou num bar e sentou à mesa. Observando a chuva, pensava na vida que levava; nada parecia fazer sentido, é tudo tão efêmero, tão superficial! Tentava encontrar pontos relevantes que lhe indicassem algum caminho, mas tudo o que via era um dia nublado que bloqueava a passagem de qualquer raio de sol. Perdeu-se em seus devaneios. “A senhora vai pedir alguma coisa?” interrompeu-lhe os pensamentos o garçom, que estava preocupado em liberar a mesa para algum cliente pagante. Ela pediu então uma cerveja. Servida,  enrolou com o copo cheio enquanto perdia-se em suas reflexões. Sacou seu bloco de notas, uma caneta, esboçou palavras sem sentido, olhava para o papel e bufava impaciente esperando alguma inspiração. Não percebeu quando um homem de cabelo chanel, terno preto, de aspecto empoeirado, e gravata borboleta, que parecia ter saído diretamente do século XIX, sentou-se à sua frente.

“Olá, o que está escrevendo?”

“Perdão?”

“O que escreve aí? Me interesso pelos meus discursos metalinguísticos.”

Perplexa, pensou em levantar da mesa, quem era aquele maluco, afinal? Que ousadia dirigir-lhe a palavra, um louco, certamente. Mas aquele rosto lhe era muito familiar, onde o tinha visto? Balançou a cabeça, começou a recolher suas coisas e preparava-se para levantar.

“É, eu escrevi essa cena. Mas… fique mais um pouco, sua cerveja está intocada.”

“Mas quem é você afinal? O que você quer?

“Você sabe quem eu sou.”

 Olhou profundamente nos olhos dele, viu aquele cabelo, aquela vestimenta e então pensou estar fora de si.

“Lewis Carroll?”

“Se assim você me vê.”

“Não é possível.”

“Sou aquele que escreve os seus pesadelos.”

“Meu autor!”

“Seu senhor.”

“Meu autor é Lewis Carroll… isso explica muita coisa.”

“Você ainda não me respondeu o que estava anotando.”

“Bem, você é meu autor, então deveria saber.”

“Às vezes os personagens criam vida própria. Você também escreve, deveria saber disso.”

“Se eu sou sua personagem, o que eu escrevo é o que você escreve sobre o que eu escrevo.”

“Não quando saem fora de controle. Vamos, mostre-me, quero saber.”

“Se os seus personagens fogem, recupere-os por conta própria.”

“É o que vim fazer.”

“Então boa sorte, não mostro minhas anotações para qualquer um.”

“Eu não sou qualquer um, você está perdida porque eu tive um bloqueio criativo.”

“Você está morto!”

“Estar vivo ou morto é apenas uma questão de perspectiva. Eu vivo no imaginário coletivo, eu estou aqui porque você me vê.”

“Já sei o que vou escrever nesse bloco.”

“Gosto quando meus personagens me dão ideias. Só não pense em atravessar um espelho, porque isso já está meio ultrapassado.”

“Eu vou escrever o assassinato de Lewis Carroll.”

“Eu não fui assassinado.”

“Será.”

“Você não conseguiria me matar.”

“Veremos.”

Dizendo isso, pagou a cerveja que não tomou, levantou-se e rumou à estação de metrô. Lewis a seguiu.

“Você vai mesmo me acompanhar?” Disse-lhe, já esperando o trem na plataforma do metrô.

“Sim, mergulhar na história da personagem é a melhor forma de compreendê-la.”

“Se assim você deseja, vamos lá.”

Terminou de falar e empurrou seu autor no trilho, que foi atingido em cheio pelo trem.

“Já foi?” Disse. Entrou no vagão e sentou.

“Essa foi boa” disse-lhe Lewis sentando ao seu lado “Qual será a próxima?”

“No caminho a gente vê.”

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