O passado que não era seu – Parte 2

De mãos cortadas e pouco cicatrizadas, voltou à cama naquela noite. Acordou em meio àqueles mesmos corredores, algumas portas estavam abertas e outras tantas continuavam fechadas. Não fazia a minha ideia de por que entrou naquele mundo que surgira, parecia-lhe interessante, causava-lhe admiração, mas também dor, uma dor profunda que não era provocada pelos cortes na mão, estedia-se por dentro de seu corpo e não conseguia detectá-la. Encontrou a foto que faltava no porta-retrato, estava em uma gaveta de uma porta que se abrira recentemente. A porta deve ter sido aberta por acidente, pois aquela voz continuava a dizer “esse passado não pertence a você”. Nem aquele passado nem o presente que o alimentava. A voz a guiava pelos corredores, mostrava-lhe algumas paisagens que se guardavam atrás das portas, mas logo se fechava, ela já tinha visto o bastante e não tinha mais o direito de estar ali.

“Suas mãos ainda estão machucadas”, disse-lhe a voz. “Não deveria ter mexido no que não lhe dizia respeito, apenas o que mostro deve ser visto”. Ela não entendeu. “As minhas mãos não doem mais” respondeu-lhe. “Você me trouxe até aqui, deparei-me com as portas e quis explorá-las”, continuou. A voz nada disse e seu dono apareceu, olho-a nos olhos, suspirou e abraçou-a com ternura. As angústias dores haviam passado e, naquele momento, nada podia ser melhor do que estar ali, ainda que não fizesse ideia de onde estava. Todas as portas pareciam estar abertas, mas ele não a guiava através de nenhuma delas ela apenas podia contemplar a distância o que ele lhe oferecia. E então ele sumiu e todas as portas estavam fechadas novamente, não era possível sequer espreitá-las. A sensação boa provocada pelo abraço foi embora juntamente com o misterioso dono da voz. A dor e a angústia retornaram exatamente para onde estavam, com a mesma intensidade e, agregado, o medo. Medo de que aquele momento não se repetisse. Fechou os olhos, suspirou, e lá estava ele, sorrindo-lhe ternamente, ela o abraçou com força “Não vá embora de novo, fica…” e sentiu-se colhida mais uma vez, foi tomara por tranquilidade e paz temporárias. Ele foi embora e ela acordou na cama, com dor.

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