MT – Diário de Bordo: programa de índio

Eu comecei esse diário de bordo dentro do ônibus, no momento em que a questão de desocupação da terra indígena Marãiwatsédé, em Alto Boa Vista, no Mato Grosso, bloqueava as estradas da região. Eu estava passando por “Cascaiera”, como me informaram, quando tivemos que trocar de ônibus, atravessando a pé a estrada bloqueada por tratores e pneus em chamas para chegar ao outro ônibus que nos permitiria seguir viagem e terminei essa primeira parte agora, já sentada no conforto do quarto, prestes a dormir, baseando-me nas memórias do dia a partir do momento em que ônibus começou a andar e eu parei de escrever. Portanto, o tempo da enunciação e do enunciado ora coincidem, ora divergem.

Essa é uma daquelas viagens que você faz quando precisa deixar algo para trás, buscar algum tipo de interiorização e reencontrar alguma coisa perdida, talvez uma querida amiga que, em vez de morar, resolveu se esconder no meio do mato. Essa é a minha viagem para Querência, já passam de 24 horas de viagem e estou no terceiro ônibus que vai, finalmente, se nada mais se colocar entre a pequena cidade e este meio de transporte.

Acordei às 4 horas da manhã de ontem (10/12/12) para iniciar minha viagem. Fui de carona com o pai até a estação Anhangabaú da linha vermelha do metrô e de lá segui até a estação Tatuapé, onde peguei o ônibus versão pobre da Airport Service (R$ 4,20 ao invés de R$36 é uma economia e tanto, não?) e cheguei ao aeroporto de Guarulhos para então voar para Goiânia. O avião pousou em Ribeirão Preto e só depois de meia hora decolou novamente para chegar à capital de Goiás às 11 da manhã. Fui para a rodoviária, comprei passagem para Querência e então esperei até às 3 da tarde, hora em que sairia o ônibus. Seriam longas 16 horas de viagem pela frente.

Com tantas paradas que já perdi a conta, consegui algumas horas de sono com dois comprimidos de dramin, sendo que o primeiro foi por nausear com as legendas do filme que estava passando na televisão do busão (pra que legendas, e por que eu as estava lendo? O filme era dublado, afinal! E nem sei qual era o filme, passei tão mal que esqueci de continuar assistindo) e a outra foi proposital para forçar o sono. Teria sido mais fácil se não tivesse o som de uma TV desligada e um garoto não estivesse ouvindo “Eu quero Tchu, eu quero tchá” sem fone de ouvido em seu celular. Não aguentei e pedi gentilmente que o garoto colocasse fones de ouvido, a avó do menino não gostou, e eu disse-lhe que seria complicado viajar se eu tivesse que ligar as músicas do meu celular para competir com as dele. O som do celular foi desligado e não houve mais problemas. Quando havíamos sido avisados sobre um possível bloqueio de estrada na cidade de Ribeirão Cascalheira, próxima à região de Alto Boa Vista, essa mesma senhora havia se pronunciado indignada com o infeliz comentário: “Esses índio sempre causando problema! Atrapaiando a vida do trabaiadô… eles que vive às custa da gente e nóis que trabaia que se ferra… bando de folgado que não faz nada que que ganhá tudo de graça”. Aí eu entendi a situação.

Após longas horas de viagens e suas paradas, consegui dormir mais confortavelmente quando um sujeito que estava ao meu lado desceu em alguma das paradas, aí eu me estiquei e tomei conta dos dois bancos e o corredor. Já estava num sono gostoso quando o ônibus parou e o motorista nos avisou que teríamos que trocar de ônibus porque a estrada continuava bloqueada. Meio sonolenta, ainda não havia entendido onde estávamos, não lembrava do aviso sobre o possível bloqueio (o que dois dramins não fazem…) e perguntei onde estávamos. Uma mulher então me respondeu “é Cascaiera… bloquearam, vamos ter que descer… esses índio acha que pode tudo… se nóis mata eles somo preso, mas se eles mata a gente tudo bem.”

Mas foi quando desci que entendi que não eram os índios que bloqueavam a estrada, eles não usam tratores e pneus queimados para bloqueios, quem causava o transtorno eram proprietários rurais que protestavam contra o seu despejo. Eu não estava inteirada do que está acontecendo por aqui, e nem poderia, a mídia não dá muita atenção ao caso e só foi chegar hoje aos jornais e à televisão porque a situação começou a ficar bem crítica, mais estradas estão sendo bloqueadas (e eu espero que eu consiga voltar para Goiânia) e os protestos estão cada vez mais intensos. A Funai exige a terra indígena e pequenos proprietários rurais, que possuem escrituras de seus terrenos, estão sendo despejados sem qualquer indenização. E, ao que parece, os índios nem tem o que fazer com essas terras, eles não são agricultores. Pergunto-me por que apenas os pequenos produtores é que sofrem despejos. Índios querem as suas terras e o governo oferece soluções toscas que não satisfazem nenhum dos lados. O exército desce o cacete nos manifestantes, impede a aproximação da imprensa e isso é só a pontinha do iceberg.

Voltando à minha jornada, segui com minha mala, bolsa e mochila por entre os tratores até o ônibus que nos esperava do outro lado, bem mais velho e com bem menos lugares, não caberiam todos os passageiros ali. Depois de 20 minutos esperando lá dentro, alguns em pé e outros sentados, fomos avisados que aqueles que iriam para Querência seguiria em outro ônibus que havia acabado de chegar. Finalmente nesse “novo” ônibus, segui por mais uma hora e meia de viagem, dormindo, apenas acordando com alguns sacolejos e voltando a dormir logo em seguida.

Cheguei a Querência um tanto quebrada e a Vanessa já me esperava na rodoviária às 5:30 da manhã no horário local. Chovia muito e as ruas estavam cheias de lama, seria impossível caminhar com a minha mala pela rua. Esperamos um dos três táxis que existem na cidade e fomos enfim ao meu destino onde eu pudesse tomar banho e dormir decentemente.

A cidade é um ovinho, rodeada de fazendas, a área urbana é bem pequena e a internet é uma benção que não funciona nos dias de chuva. É uma delícia! Passei o dia fotografando, explorando tratores, colheitadeiras e afins, andando de bicicleta até, enfim, “cair na night” de Querência com a Vanessa e os amigos dela (gente boa!), que foi um X-salada em uma das poucas lanchonetes abertas. À noite tudo aqui é um breu, há pouca iluminação pública fora da avenida principal, o que nos presenteia com um belo céu estrelado. Pra não dizer que não acontece nada por aqui, foi só eu ir ao banheiro quando estávamos na lanchonete que um carro de polícia chegou à casa ao lado e de lá arrancou um cara a tapas e o levou preso. Cheguei a tempo de vê-lo sendo enfiado dentro da viatura.

Os próximos dias prometem ser repletos de passeios pacatos, colheita de fruta no pé, ordenha de vacas e visitas a picos onde as estrelas tomam conta de todo o visual. Toda a paz que eu preciso está ao meu redor e ela já começou a tomar conta de mim.

Informações sobre a desapropriação de Alto Boa Vista e conflitos na região aqui.

3 Respostas to “MT – Diário de Bordo: programa de índio”

  1. Que seja uma delícia de viagem Robs, tem tudo para tal! bjos!😀

  2. que delícia de lugar eim Rô! Mas foi engraçado depois do relato dos bloqueios da estrada e sobre o cara sendo preso, vc concluir dizendo que toda a paz que v c precisa ta ao seu redor hehe…….curta bastante, depois quero ver todas as fotos

  3. marinices Says:

    Nossa, te conhecendo como eu conheço, imagino a sua vontade de soltar uma para essa mulher hehe😉 e fez bem em falar pro menino desligar o cel, que orgulho de vc, queria ser assim tbm =D aproveita aí! Obs: isso que a Kita falou eu tbm achei engraçado, não parece ter tanta paz aí😛 hehe
    beijos

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