MT – Diário de Bordo: Um dia com sapos, corujas e sem gasolina

Hoje acordei e fui rodar mais um pouco com a bicicleta da Vanessa enquanto ela trabalhava com seus tratores e colheitadeiras. Fiz comprinhas de mercado, farmácia e fotografei mais um pouco. Fui buscar empadas na Panificadora Central e consegui me perder pela primeira vez em ‘Querê’! Já cansada e torrada pelo sol, fui à loja dos monstros desmatadores (mas que ampliam o agronegócio que sustenta a vida do povo dessa região). Lá chegando inteirei-me das notícias, haviam fechado mais estradas em Nova Xavantina, Água Boa e Barra do Garças. Nada chegava a ou saia de Querência, já havia começado o racionamento de combustível na cidade e, no final da tarde, não havia mais gasolina disponível.

A preocupação é que comece a faltar suprimentos nos mercados (acho que amanhã já vou me garantir com mais algumas comprinhas para a minha estadia por aqui!) e eu só espero que as estradas sejam liberadas antes do dia da minha partida. Teoricamente Água Boa abre amanhã, mas enquanto as negociações prosseguem para abertura de algumas estradas, outras fecham, porque a situação está bem complicada. Os produtores de gado têm que deixar suas terras e buscam lugar para deixar seu gado em cidades vizinhas fora do território que pertence aos índios Xavantes (os quais, segundo me informaram moradores da região, sequer estão interessados em permanecer na terra dos agricultores e pecuaristas porque eles não têm o que fazer com elas) ou então tentam vendê-los, mas dada a situação de emergência, o preço do gado despencou e os pequenos produtores estão caindo no total prejuízo e perdendo o sustento de suas famílias.

A situação fica cada vez mais complicada, os protestos devem continuar e se intensificar, enquanto o assunto é tratado apenas pela imprensa local e a nacional sequer dá atenção ao assunto. “Enquanto isso, a Dilma está em Paris” disse um trabalhador que já previu cancelamento de vendas na loja porque não se sabe se o caminhão com o carregamento necessário vai chegar a Querência. Pois é, essa é a situação aqui, uma realidade que eu não conhecia e estou observando quase de perto, mas longe dos conflitos entre a polícia e os produtores das terras em desocupação. Apesar disso tudo, a vida aqui está tranquila, ainda não falta nada essencial e o carro de nosso amigo Diego é flex (coisa rara por aqui)  enquanto acabaram com o estoque de gasolina, tivemos álcool para dar um bom role para longe da região urbana.

Fomos parar no meio das plantações de soja das fazendas vizinhas, , em total escuridão e sem nenhuma lanterna (culpa da Vanessa!), apenas com a luz do farol do carro e as telas de nossos celulares. saímos para procurar as estrelas, mas o céu estava nublado (acho que amanhã promete muita chuva), “para que estrelas se temos nós”, diz Vanessa. Não tínhamos estrelas no céu, mas encontramos muitas corujas no meio do caminho! Entretanto dada a falta de luz, era preciso chegar perto para fotografa-las. Sem sucesso, pois todas fugiram, a única foto que consegui foi usando minha lente zoom, mas sem flash e sem uma boa condição de luz ou lente apropriada, dá para ver apenas alguma coisa que lembra uma coruja em meio à escuridão. Vou mexer em todas essas fotos apenas quando estiver de volta à selva de pedra.

De lá fomos para perto de um lago, no limite da cidade, ainda na completa escuridão, e nunca ouvi tanto sapo junto (e olha que eu achei que nunca ouviria mais sapos do que em Barra do Una, na Jureia, em São Paulo), eles não coachavam, eles assobiavam, martelavam, serravam, e juntos faziam um som único, ininterrupto e absurdamente alto. Tentei filmar, mas a imagem era um grande preto e o som virou um enorme zunido! Começou a chover, entramos no carro e voltamos para a cidade. Chegamos à praça do centro da cidade e lá começamos a conversar, a tecer comentários sobre a fonte de extremo mau gosto que tem o charmoso apelido de “cocozão”, sim ela parece um grande amontoado de bosta, e ali se encena a paixão de cristo, que bonito! É, demos umas boas risadas. Acho que amanha vou finalmente ordenhar uma vaquinha! Até o próximo diário de bordo.

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Uma resposta to “MT – Diário de Bordo: Um dia com sapos, corujas e sem gasolina”

  1. marinices Says:

    Corujas *-* hehe

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