O palacete de vidro

Por trás da vidraça turva, ele observava. A visão não era clara, mas ela estava lá; as suas curvas eram visíveis, e chamavam atenção. Mas o que o intrigava, eram as lágrimas. Ela demorou para perceber que ele estava ali. Para falar a verdade, ela nem teria lembrado da existência da vidraça se ele não tivesse se aproximado para observar. Ela então encostou a mão no vidro. Os contornos dos dedos ficaram nítidos do outro lado, e ele pode ver com clareza e então encostou sua mão na dela, com uma fina camada de vidro sujo separando as duas.

“Você não parece muito feliz aí dentro”, disse ele.

“Não é muito agradável, quanto mais eu tento limpar, mais sujo fica.”, ela respondeu.

“Venha aqui fora, o tempo está agradável e você vai respirar melhor.”

Ela esfregou o vidro, por uma fresta pôde vislumbrar belas paisagens, um ar mais puro e renovado do que aquele que a sufocava ali dentro. Mas, por mais que desejasse, não podia abandonar aquele lugar, era lindo quando o encontrou. Belas peças de cristais e uma porta cravejada de diamantes. O tapete de veludo levava para dentro das paredes de vidro cristalinas convidava a um interior aconchegante e deslumbrante. Há tanto tempo andando por aí, não foi preciso pensar muito para entrar e se apaixonar pelo lugar. Mas logo percebeu que as paredes cristalinas não eram limpas periodicamente, o interior aconchegante, possuía móveis corroídos que desabavam ao sentar. Mas era lindo aquele lugar, ela não podia deixá-lo para trás. Tinha certeza de que, se ele tinha defeitos, poderia consertá-lo. Bastava um pouco de boa vontade e um pouco de limpeza.

“Eu não posso, demorei para encontrar esse lugar, não posso deixá-lo desmoronar.” Ela respondeu, depois de muito pensar.

“Esse lugar já está condenado, você precisa sair antes que desabe com você aí dentro.”

“Eu preciso tentar.”

Respeitando-a, afastou-se, mas sempre se mantinha por perto. Quando ela se sentia triste e cansada, encostava a mão no vidro, cada vez mais sujo, e ele prontamente aparecia para encostar a mão de volta e oferecer-lhe algumas palavras de conforto. Esta dinâmica seguiu por dias a fio. Ele sabia que ela estava perdida e que seu apego àquele lugar perdido a cegavam. Bastaria que ela tomasse uma única iniciativa para se libertar. Mas, se ele não podia tirá-la dali, também não podia abandoná-la. Quando o falso palacete desabasse, tudo que ele poderia fazer era ajudar a resgatá-la dos escombros.

Certo dia, ela, esgotada, começou a perceber que, a cada cadeira que ela pregava, desmoronava outra, um quadro que prendia, caía o outro. Não havia lugar para despejar o lixo, e ele se acumulava. Era tanta poeira que ela desistiu de limpar o vidro, de turvo passou a quase opaco, e ela o via quando esfregava aquele pequeno pedaço do vidro e encostava sua mão. Ele nunca havia saído dali, seu senso de humanidade não permitira que ele abandonasse alguém em tão deplorável situação, presa num falso palacete por não conseguir libertar a mente e o coração.

“Seja lá o que você viu quando chegou aqui, não existe mais, olhe à sua volta!”

“Eu preciso sair daqui, mas eu não consigo! Por que eu não consigo transformar esse palacete no que ele já foi um dia?”

“Por que talvez ele nunca tivesse sido um palacete de verdade.”

“Eu não consigo acreditar, parecia tão sólido, tão real…”

“Real, talvez; sólido, nunca.”

Mais alguns dias se passaram e ela continuava lá dentro, choramingando pelos cantos, andando em círculos e já nem sabia mais onde era a saída, quando cansada demais, ela se encolhia num canto e dormia, tentava dormir o máximo que pudesse só para não ter que encarar a realidade que estava à sua volta. Quase esqueceu que ele tava lá fora, quando então ele bateu no vidro. Ela foi até ele e desabou em lágrimas e prantos.

“Eu quero sair, mas não consigo encontrar a porta!” dizia soluçando em desespero.

“Você vai encontrar, se você entrou, você pode sair, não entre em desespero. Vá tateando pelo vidro. Com essa sujeira tudo se misturou, não existe mais clareza, é só ir trançando seu caminho sem se perder.”

Ela procurava, mas tinha medo. Tateava, chorava, espirrava. Tudo estava ruindo. As paredes de vidro começaram a trincar. A raiva tomou-lhe conta e deu um soco. Cortou a mão, o vidro cedeu, e tudo começou a desabar. Antes que ela fosse soterrada, ele estendeu a mão, ela segurou e ele a puxou para fora.

“Acabou agora” ele disse.

“Não acabou, ainda dói e minha mão está sangrando.”

“Talvez possa estar doendo, mas se você tivesse ficado lá dentro, o estrago, a dor e os machucados teriam sido bem maiores.”

“Se não fosse por você…”

“Eu só estendi a mão, a decisão de sair foi sua.”

“Um lugar tão belo transformado em nada.”

“Um lugar belo, mas sem estrutura, convidativo, mas não podia sustentar sua aparência, sem alicerces, a construção mais esplêndida sempre vem abaixo.”

“Obrigada por estar aqui.”

“Obrigado por me permitir te conhecer.”

Ao olhar nos seus olhos ela teve a certeza de que, não importa o que acontecesse, aquele momento estaria para sempre gravado na memória, coração e alma. O que viria posteriormente ninguém sabia, nem ela, nem ele, mas algo mudou em suas vidas ali e, se estavam seguindo caminhos paralelos ou se era apenas um ponto de encontro de dois caminhos que se cruzavam ao seguir diferentes caminhos, não fazia muita diferença, não para aquele momento. O palacete de vidro havia ido embora para sempre, e os machucados logo se transformariam em cicatrizes e então desapareceriam. A partir daquele instante, novos alicerces começaram a ser construídos.

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