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O rock e seu papel histórico, social e cultural

Posted in Cultura de Bar, Nosso Mundo on janeiro 25, 2013 by Unsere Welten

A tríade “sexo, drogas e rock’n’roll” muito fez sentido principalmente entre as décadas de 60 e 70, quando a mistura revelava-se uma forma de rebeldia e exacerbação que se dava através do choque, da contravenção. Os jovens encontravam forças nas drogas e na expressão musical, principalmente no rock, vertente que foi a marca da juventude em um mundo abalado pelos resultados de uma grande guerra que dividiu o mundo em dois grandes blocos.  O rock tornou-se símbolo da juventude “moderna”, refletindo, inclusive, a hegemonia cultural dos Estados Unidos, tanto na cultura popular, quanto no estilo de vida (Hobsbawm, p. 320).

Por ter surgido da mistura de gêneros, entre eles o blues, soul music e, paralelamente, o funk, o rock acabou valorizando e projetando mundialmente a música negra em uma época da uma sociedade declaradamente segregacionista. Direta ou indiretamente, o novo gênero musical em muito colaborou com a luta de Martin Luther King, que atingia seu ápice na década de 60, pela igualdade entre negros e brancos. Os britânicos do Beatles, inclusive, recusaram-se a tocar para uma plateia segregada num show em 19651, nos Estados Unidos.

Não é a toa que o rock tornou-se uma das mais importantes formas de manifestação cultural naquele período e se estendeu pelas décadas seguintes.  Assim afirma o historiador Eric Hobsbawm:

A nova “autonomia” da juventude como uma camada social separada foi simbolizada por um fenômeno que, nessa escala, provavelmente não teve paralelo desde a era romântica do início do século XIX: o herói cuja vida e juventude acabavam juntas. Essa figura, antecipada na década de 1950 pelo astro de cinema James Dean, foi comum, talvez mesmo como um ideal típico, no que se tornou a expressão cultural característica da juventude – o rock. (HOBSBAWM, Eric. 1995, p. 318)

Juntamente com as drogas e o sexo deliberado (vide os bastidores de Woodstock2), o rock’n’roll era a identidade dos jovens que acabava levando uma vida de excessos, tanto entre o público quanto entre os próprios artistas, que encontram na tríade uma forma de rebelar-se contra a opressão e a pressão que pesavam sobre seus ombros. Nasceram então os grandes nomes do cenário roqueiro: Janis Joplin, Rolling Stones, The Beatles, Jimi Hendrix, The Doors, entre tantos outros que fizeram história.

Assim sendo, Sexo, drogas e rock’n’roll foi o resultado de uma explosão, da revolução social e cultural nesse período. Nas décadas seguintes, não mais visto apenas como forma de rebeldia ou fuga para “paz e amor”, o rock continuou cumprindo seu papel e se tornou uma importante ferramenta para manifestações e críticas principalmente políticas. O engajamento de astros do Rock em causas político-sociais tornou-se crescente. O clássico álbum The Wall (1979), do Pink Floyd, foi uma importante obra que fazia alusão direta à Guerra Fria. Não obstante, após a queda do Muro de Berlim, em 1989, Roger Waters, ex-líder da extinta banda, realizou um show histórico em Berlim em julho de 1990, representando com maestria a construção e queda do muro, tanto pelo conteúdo músicas quanto pela representação visual e teatral do espetáculo.  The Trial é o ápice do show, quando o refrão “Tear down the wall” é entoado por todos até a derrubada do muro cenográfico que foi construído ao longo de toda a apresentação.

Entre os artistas convidados para se apresentar no evento de Waters, estava o Scorpions, banda alemã cujos membros cresceram sob a forte influência dos efeitos de um dos países precursores da Segunda Guerra e dividido em duas Repúblicas. Herman Rarebell, ex-baterista da banda, afirma:

Fomos expostos ao monumento onipresente e onipotente que fora concebido, construído e consagrado para ser o símbolo definitivo da opressão, assim como um lembrete cruel da diferença entre o Oriente e o Ocidente, o Muro de Berlim. (RAREBELL, Herman. 2012, p. 14)

Wind of Change, do Scorpions, foi uma das grandes canções da década de 90, lançada no álbum Crazy World, em 1990. Foi sob influência dos “ventos de mudança,” que anunciavam o fim de uma era de bipolaridade mundial, após sua segunda visita à URSS, em 1989, que Klaus Meine, cantor e compositor do Scorpions, escreveu Wind of Change. Poucos meses depois, o muro caiu. A música representou o sentimento não só da Alemanha e da União Soviética, mas de todo o globo em relação ao que acontecia no mundo. A música Crossfire, do álbum Love at First Sting (1984), também foi uma música inspirada diretamente pela convivência com a Guerra Fria.

[…] mesmo antes de Wind of Change, eu escrevi músicas como Crossfire, na qual eu tentei descrever meus sentimentos sobre como é crescer entre aqueles poderosos blocos, a União Soviética e os Estados Unidos, o Oriente e o Ocidente. Então eu acho que quanto nós estivemos em Moscou, no Moscow Music Peace Festival… o Ozzy Osbourne e o Bon Jovi estiveram lá e voltaram para casa dizendo “Nós detonamos na União Soviética!”, mas para nós, que viemos da Alemanha, foi uma história muito mais emocional, por isso eu escrevi Wind of Change, pois sempre fui influenciado pelo modo que crescemos e o que vimos em nosso país, e também temíamos o confronto, o perigo quando os tanques americanos e os tanques soviéticos estavam frente a frente em Friedrichstraße, no Checkpoint Charlie, encarando uns aos outros em Berlim. Parecia que a próxima Guerra Mundial estava a alguns minutos de distância, quem quer que disparasse uma bala ali começaria a Guerra. (Klaus Meine, em entrevista ao site Scorpions Brazil.)

A música, bem como diversas outras formas de manifestação artística, portanto, sempre teve um papel fundamental na história, e o rock encontrou, nessa era dos extremos, o seu lugar. A última turnê de Roger Waters, como mesmo nome do disco The Wall, mostra que uma obra de décadas atrás nunca esteve tão atual. Suas apresentações no Brasil, em março e abril de 2012, trazendo à tona questões políticas atuais, como Sionista-Palestina, bem como sua clara militância a favor do Estado Palestino, mostram que, se o uso das drogas hoje já não é forma de rebeldia válida uma vez que não há mais o mesmo contexto das priscas eras, o rock continua sendo um meio válido, ainda que o gênero não esteja mais vivendo os seus anos de glória. Os tempos mudaram, saem as drogas, ficam o sexo e o rock’n’roll. Hoje, manifestar-se através da música, é arte, é consciência, mas drogar-se em nome da rebeldia, é assinar um atestado de estupidez e ignorância.

Colaboração: Bruno Rauber e Mailson Fiuza.

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Notas:

1. Em um documento assinado pelo empresário da banda, Brian Epstein, com exigências para o show no Cow Palace, em Daly City, no Estado americano da Califórnia, os Beatles deixavam claro que se recusavam a tocar diante de uma plateia segregada, mostrando seu claro posicionamento diante da política racial discriminatória dos Estados Unidos. O movimento pelos direitos civis, comandado por Martin Luther King, estava ganhando força.

2. Assista ao filme Aconteceu em Woodstock (2009), de Ang Lee.  

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Referências:

HOBSBAWM, Eric. A Revolução Cultural. In: A Era dos Extremos: O Breve século XX: 1914 – 1991.  São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

RAREBELL, Herman; KRIKORIAN, Michael. Wind of Change. In: Scorpions: Minha história em uma das maiores bandas de todos os tempos. São Paulo: Panda Books, 2012.

Scorpions Brazil fansite. SCORPIONS: Klaus Meine fala sobre a última grande turnê. Disponível em: <http://www.scorpionsbrazil.net/br/noticias.php?subaction=showfull&id=1358709163#ixzz2IY2ty02w>. Acesso em: 25 de janeiro de 2013.

BBC Brasil. Beatles se recusaram a tocar para plateia segregada nos EUA. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/09/110916_beatles_exigencias_bg.shtml>. Acesso em: 25 de janeiro de 2013.

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O assassinato de Lewis Carroll

Posted in Cultura de Bar on outubro 18, 2012 by Unsere Welten

Era noite e chovia muito, o clima estava propício para reflexões profundas e depressivas. Ela então entrou num bar e sentou à mesa. Observando a chuva, pensava na vida que levava; nada parecia fazer sentido, é tudo tão efêmero, tão superficial! Tentava encontrar pontos relevantes que lhe indicassem algum caminho, mas tudo o que via era um dia nublado que bloqueava a passagem de qualquer raio de sol. Perdeu-se em seus devaneios. “A senhora vai pedir alguma coisa?” interrompeu-lhe os pensamentos o garçom, que estava preocupado em liberar a mesa para algum cliente pagante. Ela pediu então uma cerveja. Servida,  enrolou com o copo cheio enquanto perdia-se em suas reflexões. Sacou seu bloco de notas, uma caneta, esboçou palavras sem sentido, olhava para o papel e bufava impaciente esperando alguma inspiração. Não percebeu quando um homem de cabelo chanel, terno preto, de aspecto empoeirado, e gravata borboleta, que parecia ter saído diretamente do século XIX, sentou-se à sua frente.

“Olá, o que está escrevendo?”

“Perdão?”

“O que escreve aí? Me interesso pelos meus discursos metalinguísticos.”

Perplexa, pensou em levantar da mesa, quem era aquele maluco, afinal? Que ousadia dirigir-lhe a palavra, um louco, certamente. Mas aquele rosto lhe era muito familiar, onde o tinha visto? Balançou a cabeça, começou a recolher suas coisas e preparava-se para levantar.

“É, eu escrevi essa cena. Mas… fique mais um pouco, sua cerveja está intocada.”

“Mas quem é você afinal? O que você quer?

“Você sabe quem eu sou.”

 Olhou profundamente nos olhos dele, viu aquele cabelo, aquela vestimenta e então pensou estar fora de si.

“Lewis Carroll?”

“Se assim você me vê.”

“Não é possível.”

“Sou aquele que escreve os seus pesadelos.”

“Meu autor!”

“Seu senhor.”

“Meu autor é Lewis Carroll… isso explica muita coisa.”

“Você ainda não me respondeu o que estava anotando.”

“Bem, você é meu autor, então deveria saber.”

“Às vezes os personagens criam vida própria. Você também escreve, deveria saber disso.”

“Se eu sou sua personagem, o que eu escrevo é o que você escreve sobre o que eu escrevo.”

“Não quando saem fora de controle. Vamos, mostre-me, quero saber.”

“Se os seus personagens fogem, recupere-os por conta própria.”

“É o que vim fazer.”

“Então boa sorte, não mostro minhas anotações para qualquer um.”

“Eu não sou qualquer um, você está perdida porque eu tive um bloqueio criativo.”

“Você está morto!”

“Estar vivo ou morto é apenas uma questão de perspectiva. Eu vivo no imaginário coletivo, eu estou aqui porque você me vê.”

“Já sei o que vou escrever nesse bloco.”

“Gosto quando meus personagens me dão ideias. Só não pense em atravessar um espelho, porque isso já está meio ultrapassado.”

“Eu vou escrever o assassinato de Lewis Carroll.”

“Eu não fui assassinado.”

“Será.”

“Você não conseguiria me matar.”

“Veremos.”

Dizendo isso, pagou a cerveja que não tomou, levantou-se e rumou à estação de metrô. Lewis a seguiu.

“Você vai mesmo me acompanhar?” Disse-lhe, já esperando o trem na plataforma do metrô.

“Sim, mergulhar na história da personagem é a melhor forma de compreendê-la.”

“Se assim você deseja, vamos lá.”

Terminou de falar e empurrou seu autor no trilho, que foi atingido em cheio pelo trem.

“Já foi?” Disse. Entrou no vagão e sentou.

“Essa foi boa” disse-lhe Lewis sentando ao seu lado “Qual será a próxima?”

“No caminho a gente vê.”

A pirataria move o mundo da música

Posted in Cultura de Bar, Nosso Mundo on fevereiro 7, 2010 by Unsere Welten

O download ilegal de músicas é e sempre foi uma grande polêmica, mas é fato que se ainda hoje não houvesse essa possibilidade, o universo musical não se alastraria tão rapidamente. Quando queremos conhecer o trabalho de alguma banda ou cantor, não vamos à loja comprar um CD, é mais prático baixar as músicas pela internet, dessa forma é fácil fazer e ampliar a nossa seleção musical. Comprar todos os CDs de todas as bandas e cantores que gostamos é financeiramente impossível, o que dizer então de comprar para conhecer o som?

Como já confirmado em pesquisa inglesa realizada em 2009, aqueles que fazem download de material sonoro na internet gastam muito mais com música do que aqueles que não o fazem. E a exemplo disso, foi fazendo o download de toda a discografia de uma banda que virei fã incondicional, comprei todos os CDs e gastei com ingressos para shows em várias cidades. Não fosse esse fato, talvez eu nunca tivesse descoberto o quão boa é a banda e decerto não teria gasto um centavo para comprar um mísero CD. Isso não significa que a partir daí todos os internautas vão comprar CDs de bandas que buscam pela internet, mas é certo que os tempos mudaram e o universo musical não pode depender de rádio e venda de CDs para difundir a música.

O foco da indústria fonográfica deve estar na venda de itens originais, como CDs e DVDs, destinada aos fãs de determinada banda ou cantor. São eles que desejam obter os produtos como admiradores e colecionadores. A partir daí buscam edições diferentes, especiais, singles exclusivos, encartes recheados, edições limitadas em forma de LPs. Os maiores fãs de um determinado grupo musical não se contentam apenas com MP3 em seu computador. Tendo conhecimento disso, basta usar a criatividade para explorar e aproveitar esse mercado.

Tentar barrar a pirataria na internet é como dar murro em ponta de faca, é impossível haver vigilância total em uma rede que hoje cresceu mais que a Skynet e invade os lares de todo o planeta permitindo-nos ter o mundo na palma das mãos. Qualquer ação contra o fluxo é como uma tentativa fracassada de impedir o avanço tecnológico. Para cada operação anti-pirataria haverão milhões de “Exterminadores do Futuro” anulando qualquer efeito que ela possa tentar causar.

Por que não?

Posted in Cultura de Bar, Meu Mundo, Nosso Mundo on janeiro 14, 2010 by Unsere Welten

Em certos momentos na vida devemos perceber tudo se resume a uma simples pergunta: “Por que não?”. Não é o motivo pelo qual fazer que se deve pensar, mas sim pelo qual não fazer. Não fazer por preguiça? Porque não tem vontade? Isso lá é motivo? A inércia tende a manter um corpo no estado em que ele está, se está parado, continuará parado. Ora, vida parada, vida sem graça! A falta de vontade nada mais é senão a ação da inércia tentando manter-nos na mesmice.

Já fazia dois dias que ela havia retornado daquela fantástica viagem, experiências que sem dúvida, ela jamais esqueceria. Mas ainda estava de férias, e passaria o resto dos dias esperando a volta ao trabalho. Restavam-lhe alguns dias quando recebeu o convite para voltar àquela cidade. Mas voltar? Como assim? Ela havia acabado de retornar e já haveria de sair novamente, e pro mesmo lugar?

A pergunta que lhe veio à mente foi “Por que não?”. Não havia nenhuma resposta convincente o suficiente para impedí-la de partir. Dinheiro não era problema, de que adianta economizar, conter os gastos e nada curtir? Estava quebrada, falida, mas esse não seria o impedimento, afinal, de nada adianta pagar as contas em dia, estabilizar a vida financeira e levar uma vida sem sal e monótona. Falta de planejamento? Decisão repentina? Isso pode ser problema para muita gente, mas não para ela. Analisando todas as circunstâncias, porque não partir repentinamente? Qual é o fator que impede? Ela então partiu.

Partiu e chegou ao mesmo destino, respirando outros ares, encontrando o velho amigo e a surpresa foi saber que mais imprevisibilidades chegavam. Saíram do bar pela madrugada e foram parar em outras cidades a muitos quilômetros dali. Sol, mar, lagoa, sombra e água fresca (mentira! Cerveja, refrigerante e água de côco). E o que era para ser apenas um dia, estendeu-se por dois. Foi por capotar no carro e ele não ter condições de dirigir de volta pra casa. Acordaram para ir embora, mas a atmosfera da ilha da magia foi mais forte e os prendeu ali até o último segundo possível.

Voltaram para casa, e então, para a cidade de pedra. E a cidade os aguardava, calorosa porque as pedras não são frias quando se encontra um lugar para se aconchegar. Entretanto, o clima estava para o que não poderia ser encontrado ali. Voltar para o sol, mar, lagoa sombra e água fresca (ou a bebida que fosse), ela pensou, ele também. E por que não? Eles voltaram. A vida se chama Agora.

Da moto às Seis Marias

Posted in Cultura de Bar, Meu Mundo on dezembro 13, 2009 by Unsere Welten

Geralmente, as melhores coisas da vida não são programadas, pois elas parecem na melhor hora quando menos esperamos e sempre nos surpreendem. Definitivamente era fácil fazer fugir do mais do mesmo. Dizem que quem quer arruma um jeito, quem não quer arruma uma desculpa. Ela por fim arrumou um jeito de não arranjar uma desculpa.

É clichê dizer que devemos aproveitar cada momento de nossas vidas como se fosse o último, mas raras são as vezes em que esse clichê é levado realmente a sério. Entretanto ela soube aproveitar cada segundo da viagem que decidiu fazer. Disseram-lhe que nada de diferente havia naquela cidade, mas não foi difícil descobrir que isso depende do olhar de quem a vê.

Existem pequenas coisas ao longo da vida que são simples, e sem elas faltaria tempero para saborear os dias. E foi nessa viagem que aconteceram três dessas pequenas coisas que ela havia experimentado pela primeira vez. A primeira delas foi pegar a garupa de uma moto, todo medo e insegurança que sentia desapareceram no primeiro instante em que viu, tocou e sentiu plena confiança em quem a conduzia. Fechou os olhos, saboreou o vento, abriu logo em seguida e olhou a sua volta, seu coração acelerava não de medo, mas pela emoção e alegria de uma criança que está experimentando uma doce novidade. Seu desejo era de que aquele momento perdurasse eternamente enquanto durava.

A segunda dessas coisas foi encarar uma queda d’água em um dia chuvoso, não havia uma viva alma sequer a não ser ela e um velho amigo. Tomada por um desejo incontrolável de entrar em comunhão com aquele lugar, mergulhou na cachoeira de roupa e tudo, voltaria para casa enxarcada, mas quem se importa? Aquele momento era único e imperdível. Ali permaneceu por horas, e saiu apenas quando percebeu que a noite caia perderia a trilha de volta para a estrada.

Não satisfeita, foi justamente na sequência que aconteceu a terceira pequena coisa. Pronta para ir para casa, feliz e ensopada, seu amigo lhe sugeriu uma louca idéia: seguir dirigindo para a praia ao invés de ir pra casa. Hesitou, por um instante a preguiça falou mais alto, mas pensou “Preguiça de quê?”, ela estava indo relaxar, preguiça de relaxar? Isso não fazia sentido algum. Foi então que seguiram por uma hora e meia em direção à cidade praiana. Era meia noite quando sentaram para ver o mar, deitaram na areia e começaram a pensar e refletir sobre a vida, procurando as estrelas que estavam escondidas naquela noite. Ele entrou no mar, ela ficou olhando, mas não demorou muito para que submergisse na água salgada, permanecendo ali por horas ao longo da madrugada. Quando olharam para o céu, perceberam que as tímidas estrelas começaram a aparecer, logo revelando um céu nublado e ao mesmo tempo completamente estrelado. As estrelas estavam aos pares, para onde quer que olhasse, ela via duas estrelinhas lado a lado, e quando olhou para as “Seis Marias”, lembrou que faltava-lhe os óculos.

Voltaram para a casa de alma lavada, na estrada completamente escura, pararam em um refúgio, sentaram na janela do carro e perceberam que agora as estrelas apareciam sem nenhuma timidez. Ao som de grilos, pássaros e tantos outros sons da natureza fundidos naquele ambiente, ficaram ali a admirar e a conversar. Seguiram viagem e naquela manhã ela dormiu completamente em paz, seus sonhos foram calmos, sua mente estava completamente descansada.

Como a vida pode ser tão boa! Até mesmo ir num bar naquela viagem foi diferente, tudo era diferente, tudo era novo, tudo era mágico. Ficou-lhe na lembrança a saudade de cada momento vivido, sentido, experimentado. Ela voltou nas nuvens,  e de vez enquando olhava pra elas pela janelinha do avião.

“Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure” (Vinícius de Moraes)

Enquanto isso, na mesa ao lado…

Posted in Cultura de Bar on novembro 25, 2009 by Unsere Welten

Rodeada de amigos e saboreando uma gelada, ela pensava porque é toda sexta feira estava naquele bar, e sempre o mesmo bar. “Se ao menos o bar mudasse… Mas beber é bom, conversando com amigos, melhor ainda!” pensou. Entretanto, aquilo não mais lhe satisfazia. Uma sensação de falta de criatividade e mais do mesmo lhe apoderava. Não haveria nada mais para se divertir além de ficar alegre com a cerveja compartilhando a tão agradável cultura de bar?

Cerveja é bom, mas ela sentia falta de algo novo. Pensou nas estrelas que a tanto não via, pois a poluição e as luzes da cidade apagam o céu. Lembrou dos quiosques de suco que possuem tantos sabores quantos você pode imaginar e no porque nunca ninguém pensava em chamá-la para um belo sucão. Aliás, o que haveria de diferente para se fazer nessa cidade? E ela bebia, brindava e ria. Não podia ser diferente, beber é muito bom, só não preenche um certo vazio que não espera que toda sexta feira acabe em um boteco.

“Teatro!” pensou com seus botões. Teatro é algo divertido, e de quebra a noite pode acabar em um bar, agradando a todos. Mas que preguiça que dá fazer algo novo! Vencer a inércia parece exigir um esforço muito grande, é tão mais fácil buscar sempre mais do mesmo. Enquanto isso, ela beberia, brindaria e continuaria rindo às sextas-feiras. Melhor mais do mesmo do que nada de nada!

Conversa de Bar

Posted in Cultura de Bar on novembro 16, 2009 by Unsere Welten

Depois de um longo dia de expediente, amigos compartilham cerveja e risadas, discutindo sobre a vida, a paz no mundo e  solução para a fome na África.

Zé não bebia cerveja, compartilhava da companhia de seus amigos bebendo um guaraná com gelo e laranja. Ele não tirava o olho do relógio, sua mulher o esperava em casa. Ele não podia reclamar, pois ela só estava esperando-o em casa por não ter permissão do marido para sair com amigos. Um não respirava sem que o outro soubesse, vivendo felizes para sempre num mundinho que cabia dentro de um apartamento de quatro cômodos. Ao ver Mané na segunda garrafa de cerveja, Zé advertiu:

– Cara, como você bebe! Ainda vai morrer desse jeito!

– Pra morrer basta estar vivo.

– A vida não é só bebida.

(silêncio)

A face de Mané tornou-se um misto de indignação com dúvida, não sabia bem se tinha compreendido o que havia acabado de escutar e também não sabia exatamente o que deveria dizer, mas sentiu pena daquele infeliz. A única coisa que faltava ali era enterrar o sujeito e marcar a missa de sétimo dia, sem ter a certeza de que seria mesmo o sétimo dia, pois já estava morto fazia muito tempo. A resposta veio logo após sair do transe filosófico gerado pela cultura de bar:

– A morte também não.

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