Archive for the Desumano Category

O Plano dos Gatos

Posted in Desumano on abril 20, 2012 by Unsere Welten

Lyra e Zé Tigrão observam Roberta, que está jantando. Os gatos conversam entre si. Lyra se dirige ao quarto de Roberta e escala até a prateleira mais alta. Lá de cima, a gata derruba uma caixinha que possui gavetas, esta se estraçalha no chão. Roberta, atordoada, larga no braço do sofá o prato de comida e se dirige ao local de onde vem o barulho. Ela constata o estrago, arranca a gata da prateleira e volta para a sala a fim de terminar a janta. Para sua surpresa, Zé Tigrão terminava a refeição por ela. Do quarto retorna Lyra, que pergunta a Zé Tigrão:

– Conseguiu?

O gato responde, lambendo os bigodes:

– Foi um plano perfeito!

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O Cão

Posted in Desumano, Meu Mundo, Nosso Mundo on abril 29, 2011 by Unsere Welten

Quando ele entrou na sala, viram um homem de estatura mediana. Era possível observar a simplicidade em suas feições. Uma covinha na bochecha que aparecia sempre que ele sorria lhe conferia um ar de menino, ainda que os cabelos grisalhos denunciassem o auge de seus quarenta e poucos anos.

E ele estava sempre a sorrir com uma expressão que transbordava calmaria, provavelmente era um professor de filosofia. Filosofia? Não podia ser, esse tipo de aula não era ministrada ali. Quem sabe então história ou geografia? Mas geografia parecia improvável, um geógrafo dificilmente carrega em seu semblante tamanha simpatia. Geógrafos são sarcásticos e carregados de ironia, são porta-vozes de ideias pessimistas que normalmente estão sempre certas. É a classe mais realista de educadores. Aquele professor não, ele não poderia ser um geógrafo, parecia muito sonhador. Certamente era um historiador ou um literato.

Foi quando, para mais espantar, surgiu ao seu lado, como uma assustadora aparição, o próprio Cão dos Baskervilles. O simpático professor segurava, com firmeza nas mãos, mas sem a necessidade de qualquer esforço, a guia que prendia pela coleira o Cão que arreganhava os dentes e a todos assustava com aqueles olhos luminescentes. Dotado de uma voz extremamente terna e calma, disse o docente ao possuído: “Matemática, senta.”

Matemática?? Como poderia aquele homem ser o portador da voz do Demônio dos demônios? De todos eles, Matemática era o mais temido. Química e Física eram cãezinhos domésticos perto dele. Dizem até que em rituais físicos e químicos a invocação de Matemática se faz necessária. Quando o intuito é apavorar alguém, basta dizer o seu nome. E lá estava o Cão postado aterrorizante ao lado do gentil professor. O pânico foi geral quando fora noticiado de que cada aluno ali presente deveria domar a fera. Aqueles que não fossem bem sucedidos seriam devorados, mastigados, engolidos, deglutidos pelo ser inominado.

Ainda que fosse amedrontador, aquele monstro era um animal totalmente domesticado nas mãos do professor. Calmo e com uma destreza invejável, ele dominava a besta como quem aninha um gatinho em seu colo. Fazia o que queria, mandava e desmandava, e nem mesmo uma dentada ele levava. Aquele homem provavelmente era perito em lidar com a arte das trevas! Explicou-lhes que não, bastava não atacar, não lutar contra o Demônio, e então Matemática se mostraria mais amistoso do que se poderia imaginar.

Pouco a pouco, os alunos foram se aproximando. Alguns ousaram tocá-lo, outros observavam de longe. O professor, cujo semblante emanava paz e tranquilidade, tentava acalmá-los e, da forma mais didática e simpática possível, mostrava a melhor forma de compreender e se aproximar do Cão. Para alguns o animal se virava de barriga para cima e pedia cócegas, para outros, os olhos luminescentes do Belzebu faiscavam ódio e exacerbavam seu desejo por sangue. Matemática não suportava insegurança, quem quer que fosse lidar com ele precisava ter força e determinação.

Ao fim da aula de apresentação, sorridente como era de costume, o professor se retirou carregando com ele o Cão de andar imponente, deixando para trás tanto alunos que descobriram que o tal Demônio não era tão assustador como rezava a lenda, quanto aqueles que, ao encarar a fera de frente, ficaram ainda mais apavorados; mas tão apavorados que, sem precisar tomar um tapa na cara, já estavam prestes a pedir para sair. E esses últimos, já sabia o Cão, nunca serão.

Baseado em fatos quase reais

Posted in Desumano on abril 17, 2011 by Unsere Welten

A pintura preta estava intacta. Não havia na lataria um só amassado que denunciasse quem era o seu condutor. Entretanto, um único detalhe entregava as condições nas quais a máquina era guiada. O veículo sofrera algumas avarias e perdera a sua porta traseira esquerda. A cirurgia a qual foi submetido deixou sequelas e danos irreparáveis.

O possante transformou-se em um deficiente físico anômalo permanente. As portas sobrepostas em um único espaço denunciavam um tipo de polidactilia automotiva. Ao invés de um dedo inútil a mais, era uma porta inútil a mais. Já não era mais possível trafegar com a aberração negra sem a presença de um passageiro viajando no banco traseiro esquerdo com a janela aberta e segurando a porta mais externa, pressionando-a contra a interna, para evitar que ela batesse nos carros que passavam ao lado.

Ocorre que naquele dia um bêbado sentara no banco traseiro esquerdo e, cansado de segurar a porta externa, largou-a. A mesma se abriu e começou a espancar a lataria dos automóveis que trafegavam em alta velocidade, como quando, para causar tumulto, uma caneca de alumínio é arrastada de um lado para o outro nas grades de uma prisão.

O ensandecido condutor ordenava que a porta fosse segurada, mas o bêbado já não conseguia mais alcançá-la. Principalmente depois que o carro alçou vôo por passar em alta velocidade sobre uma lombada que o louco motorista não avistara porque olhava para a catástrofe causada pela porta extra. O bêbado quase foi defenestrado.

Como em uma fuga de um filme policial na sessão da tarde, o blackbird voltou a tocar o chão sem causar danos maiores à sua estrutura, deixando apenas um pequeno arranhão no pára-choque dianteiro. O condutor já não tinha mais fôlego, chegara à conclusão de que a coisa preta era amaldiçoada e já não podia mais controlá-la.

Toda aquela balbúrdia chamou a atenção de uma frota policial, que cercou o carro preto por todos os lados e todos os ocupantes que saíram de mãos para cima. Explicada a situação, os ocupantes foram liberados com um policial apto a conduzir o amaldiçoado e levar todos em segurança às suas respectivas residências, exceto o condutor, que fora algemado e conduzido pela frota policial de 20 carros para um desconhecido rumo. Os ocupantes do possante polidáctilo estavam apreensivos, viram se afastar o amigo que imobilizado dizia: “Tudo bem, essas coisas sempre acontecem comigo.”

O negão amaldiçoado foi apreendido e enviado para estudos de anomalias em anatomia veicular. O famigerado condutor foi permanentemente proibido de conduzir qualquer veículo e, para garantir que a lei fosse cumprida, foi determinado que ele ficaria trancado em uma cela isolada do contato com o mundo externo, sem previsão de soltura, a fim de garantir a segurança pública nas estradas. Fim.

Era uma vez…

Posted in Desumano on fevereiro 23, 2011 by Unsere Welten

Era uma vez uma menina aflita, ela corria desembestada, olhava para o relógio que carregava no bolso e dizia “É tarde, é muito tarde!”. O coelho, que estava descansando porque apostava corrida com uma tartaruga, pensou “Aonde essa menina vai com tanta pressa?”

Mais para trás a tartaruga continuava a correr, encontrou com um lobo que estava perdido, ele estava procurando uma menina de capuz vermelho que ele perdera de vista quando ficou tentando assoprar uma casa de tijolos. A tartaruga disse que tinha visto a menina do capuz vermelho fazia uns cinco minutos, estava conversando com duas crianças que lhe disseram que havia uma casa de doces há uns quinze minutos dali. A tartaruga voltou a correr, o lobo continuou sua busca.

O coelho perseguia a menina que corria com um relógio na mão e insistia em dizer que era tarde. “Para que essa menina está atrasada?” pensou o coelhinho. A menina desapareceu, o coelho caiu em um buraco e continuou caindo, caindo, caindo… até que chegou à Terra do Nunca. Lá ele conheceu os meninos perdidos que o levaram até uma fada que o ensinou a voar. Ele saiu voando e voltou pelo buraco onde tinha caído.

O lobo encontrou a menina do capuz vermelho na casa feita de doces, ela tinha levado os três porquinhos com ela e ela assou os três. A menina do relógio chegou bem a tempo de o banquete ser servido. O lobo se juntou ao banquete, comeu os três porquinhos assados, alguns pedaços da casa que fora servida de sobremesa e foi morar na casa de tijolos. O coelho viu lá do alto a tartaruga quase na linha de chegada, voou para se adiantar e tartaruga perdeu a corrida. Fim.

Plástico bolha

Posted in Desumano on junho 5, 2009 by Unsere Welten

Eu adoro plástico bolha, na verdade sou viciado nessas bolhinhas, o som de cada estalo é como música para minhas orelhas. Hoje minha humana recebeu um pacote estranho, não sei o que era e também não interessa. Não sei porque os humanos precisam de coisas dentro do plástico bolha, só sei que  quando ela abriu escutei de longe o som do “plóc, pléc, plóc” e levantei-me prontamente.

Olhando fixamente para as mãos dela compondo aquela sinfonia de Bethoven, eu batia os dentes a cada estourada que eu ouvia. De repente ela parou, quanta audácia! Obviamente ordenei que continuasse, apenas uma pata em cima do plástico resolveu, ela sempre me obedece. Entrei em transe novamente! Outra vez ela parou, e mais uma vez ordenei  que continuasse e ela inventou uma história de que já tinha acabado.

Não acreditei no que ela disse, como assim acabou? O plástico ainda estava na mão dela! Dei-lhe uma patada e resmunguei, arranhei o plástico até que ela estourou mais umas bolhinhas. Nem deu tempo de viajar, ela logo parou e jogou o plástico fora, disse que não tinha mais nada para estourar, fiquei deprimido e voltei pra minha cama. Parece que ele estava com defeito e não fazia mais barulho… Mal posso esperar para que outro pacote entre pela porta e ter meu doce e sonoro plóc pléc plóc outra vez.

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