Archive for the Reflexos Passados Category

O palacete de vidro

Posted in Reflexos Passados on abril 24, 2014 by Unsere Welten

Por trás da vidraça turva, ele observava. A visão não era clara, mas ela estava lá; as suas curvas eram visíveis, e chamavam atenção. Mas o que o intrigava, eram as lágrimas. Ela demorou para perceber que ele estava ali. Para falar a verdade, ela nem teria lembrado da existência da vidraça se ele não tivesse se aproximado para observar. Ela então encostou a mão no vidro. Os contornos dos dedos ficaram nítidos do outro lado, e ele pode ver com clareza e então encostou sua mão na dela, com uma fina camada de vidro sujo separando as duas.

“Você não parece muito feliz aí dentro”, disse ele.

“Não é muito agradável, quanto mais eu tento limpar, mais sujo fica.”, ela respondeu.

“Venha aqui fora, o tempo está agradável e você vai respirar melhor.”

Ela esfregou o vidro, por uma fresta pôde vislumbrar belas paisagens, um ar mais puro e renovado do que aquele que a sufocava ali dentro. Mas, por mais que desejasse, não podia abandonar aquele lugar, era lindo quando o encontrou. Belas peças de cristais e uma porta cravejada de diamantes. O tapete de veludo levava para dentro das paredes de vidro cristalinas convidava a um interior aconchegante e deslumbrante. Há tanto tempo andando por aí, não foi preciso pensar muito para entrar e se apaixonar pelo lugar. Mas logo percebeu que as paredes cristalinas não eram limpas periodicamente, o interior aconchegante, possuía móveis corroídos que desabavam ao sentar. Mas era lindo aquele lugar, ela não podia deixá-lo para trás. Tinha certeza de que, se ele tinha defeitos, poderia consertá-lo. Bastava um pouco de boa vontade e um pouco de limpeza.

“Eu não posso, demorei para encontrar esse lugar, não posso deixá-lo desmoronar.” Ela respondeu, depois de muito pensar.

“Esse lugar já está condenado, você precisa sair antes que desabe com você aí dentro.”

“Eu preciso tentar.”

Respeitando-a, afastou-se, mas sempre se mantinha por perto. Quando ela se sentia triste e cansada, encostava a mão no vidro, cada vez mais sujo, e ele prontamente aparecia para encostar a mão de volta e oferecer-lhe algumas palavras de conforto. Esta dinâmica seguiu por dias a fio. Ele sabia que ela estava perdida e que seu apego àquele lugar perdido a cegavam. Bastaria que ela tomasse uma única iniciativa para se libertar. Mas, se ele não podia tirá-la dali, também não podia abandoná-la. Quando o falso palacete desabasse, tudo que ele poderia fazer era ajudar a resgatá-la dos escombros.

Certo dia, ela, esgotada, começou a perceber que, a cada cadeira que ela pregava, desmoronava outra, um quadro que prendia, caía o outro. Não havia lugar para despejar o lixo, e ele se acumulava. Era tanta poeira que ela desistiu de limpar o vidro, de turvo passou a quase opaco, e ela o via quando esfregava aquele pequeno pedaço do vidro e encostava sua mão. Ele nunca havia saído dali, seu senso de humanidade não permitira que ele abandonasse alguém em tão deplorável situação, presa num falso palacete por não conseguir libertar a mente e o coração.

“Seja lá o que você viu quando chegou aqui, não existe mais, olhe à sua volta!”

“Eu preciso sair daqui, mas eu não consigo! Por que eu não consigo transformar esse palacete no que ele já foi um dia?”

“Por que talvez ele nunca tivesse sido um palacete de verdade.”

“Eu não consigo acreditar, parecia tão sólido, tão real…”

“Real, talvez; sólido, nunca.”

Mais alguns dias se passaram e ela continuava lá dentro, choramingando pelos cantos, andando em círculos e já nem sabia mais onde era a saída, quando cansada demais, ela se encolhia num canto e dormia, tentava dormir o máximo que pudesse só para não ter que encarar a realidade que estava à sua volta. Quase esqueceu que ele tava lá fora, quando então ele bateu no vidro. Ela foi até ele e desabou em lágrimas e prantos.

“Eu quero sair, mas não consigo encontrar a porta!” dizia soluçando em desespero.

“Você vai encontrar, se você entrou, você pode sair, não entre em desespero. Vá tateando pelo vidro. Com essa sujeira tudo se misturou, não existe mais clareza, é só ir trançando seu caminho sem se perder.”

Ela procurava, mas tinha medo. Tateava, chorava, espirrava. Tudo estava ruindo. As paredes de vidro começaram a trincar. A raiva tomou-lhe conta e deu um soco. Cortou a mão, o vidro cedeu, e tudo começou a desabar. Antes que ela fosse soterrada, ele estendeu a mão, ela segurou e ele a puxou para fora.

“Acabou agora” ele disse.

“Não acabou, ainda dói e minha mão está sangrando.”

“Talvez possa estar doendo, mas se você tivesse ficado lá dentro, o estrago, a dor e os machucados teriam sido bem maiores.”

“Se não fosse por você…”

“Eu só estendi a mão, a decisão de sair foi sua.”

“Um lugar tão belo transformado em nada.”

“Um lugar belo, mas sem estrutura, convidativo, mas não podia sustentar sua aparência, sem alicerces, a construção mais esplêndida sempre vem abaixo.”

“Obrigada por estar aqui.”

“Obrigado por me permitir te conhecer.”

Ao olhar nos seus olhos ela teve a certeza de que, não importa o que acontecesse, aquele momento estaria para sempre gravado na memória, coração e alma. O que viria posteriormente ninguém sabia, nem ela, nem ele, mas algo mudou em suas vidas ali e, se estavam seguindo caminhos paralelos ou se era apenas um ponto de encontro de dois caminhos que se cruzavam ao seguir diferentes caminhos, não fazia muita diferença, não para aquele momento. O palacete de vidro havia ido embora para sempre, e os machucados logo se transformariam em cicatrizes e então desapareceriam. A partir daquele instante, novos alicerces começaram a ser construídos.

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O passado que não era seu

Posted in Reflexos Passados on junho 28, 2012 by Unsere Welten

Naquela noite ela foi dormir cedo, fechou os olhos exaustos e adormeceu profundamente. Pouco tempo depois, ou muito tempo depois – sem a mínima noção de tempo ou espaço – abriu os olhos, tudo parecia meio desfocado, piscou algumas vezes tentando ver com nitidez, o que não ajudou muito, parecia-lhe que seus olhos enxergavam dentro da água escura com alguma meia luz indicando algumas formas. Tudo estava desconexo.

Decidiu se levantar, tirou seu cobertor, que parecia mais pesado que o comum, e quis descobrir onde estava. “Mas é claro que estou em casa” pensou “Devo estar com algum problema na visão, meu Deus! Será que…” foi então que, como uma maquina fotográfica automática, seus olhos buscavam incessantemente o foco até que o encontrasse e ela se percebeu em um corredor iluminado por algumas velas afixadas na parede, algumas apagadas. “Eu já vi um corredor desses em um filme medieval… ah! Claro, estou sonhando!” concluiu, e seguiu caminhando através do estranho caminho. Ela provavelmente estava dentro de alguma passagem subterrânea de um castelo, daquelas que levam para salas secretas ou rotas de fuga.

Ela via coisas jogadas pelo chão, “Que sonho mais estranho…” e continuava a caminhar. No corredor encontravam-se objetos que não pareciam pertencer àquele ambiente tão antigo, ela viu um mp3 player, alguns CD’s jogados e muito riscados, alguns estavam quebrados. Havia também livros, muitos livros, mas não daqueles escritos à mão e costurados com capa de couro, eram edições modernas e impressas por editoras como Conrad e Companhia das Letras: entre os livros estavam contos de horror, ficção científica, histórias em quadrinhos e romances. Olhou para tudo aquilo com estranheza. Viu fotos jogadas que não reconheceu, algumas com imagens de pessoas felizes reunidas, outras estavam rasgadas, parecia faltar alguém. Observou algumas televisões com imagens distorcidas de rostos estranhos e eventos que não lhe eram familiares.

Durante o percurso, começaram a aparecer portas pela parede, algumas pequenas, outras grandes. Dentro das que estavam abertas ela conseguia ver coisas lindas, imagens de cachoeiras, bibliotecas e muitos, muitos flashes de shows rock, cada um acontecendo em uma porta diferente. E se voltasse para uma porta anterior, era possível ver pedaços do show acontecerem de novo, ela conseguia visualizá-lo através de narrações feitas por uma voz muito doce.  Mas uma grande e considerável parte das portas estava lacrada com blocos de pedra, era impossível saber o que tinha ali. “O que será que tem por trás dessas pedras? Eu gostaria muito de entrar…” e então, quase que instantaneamente, ouviu uma voz suave “Essas memórias não lhe pertencem”, a voz era tão suave e tão distante que ela não pode ter a certeza do que ouviu, e continuou a andar e observar tudo aquilo com muita atenção.

Após algumas horas de caminhada, no meio das portas lacradas, encontrou uma que parecia ter sido recentemente arrombada, estava escuro, um completo breu, não era possível enxergar um milímetro diante dos olhos, e mesmo assim ela entrou. Aquela voz, que agora estava forte, voltou a se pronunciar “Você está entrando em um passado que não é seu” e, ignorando o aviso, continuou. Tropeçou em alguma coisa, esbarrou em algum tipo de móvel, derrubou-o e ela caiu no chão, em cima de algo que acabara de se estilhaçar. Suas mãos estavam sangrando, ela pode sentir o quente escorrer por entre seus dedos. Saiu pela porta, pegou uma das velas do corredor e novamente entrou “Eu podia ter feito isso antes…” e então voltou a olhar para frente, procurando os restos daquilo que havia se quebrado.

Era um porta-retrato com o vidro totalmente estilhaçado pela queda e, ao redor, flores murchas e pedaços de cartas rasgadas. Pegou o porta-retrato que estava virado para baixo, tirou os restos de vidro dele e ficou olhando para ele por alguns instantes. “Está vazio…” disse a si mesma em voz baixa. Repentinamente o objeto foi retirado de suas mãos. Ela olhou assustada e viu diante de si um homem que não se mostrava totalmente à luz da vela, mas percebia-se que ele vestia uma armadura e uma capa preta, era alto e imponente. “Isto não diz respeito a você”, disse o misterioso homem. Era a mesma voz que ouvira antes nas salas dos flashes de shows e no corredor. Ela o olhou encantada, queria falar-lhe, mas as palavras sumiram, tocou-lhe então a mão e fitaram-se por alguns segundos, houve um rápido momento de reconhecimento mútuo e, então, ele desviou o olhar, deixou o porta-retrato cair de suas mãos e cerrou os olhos dela suavemente com seus dedos. “Isso não diz respeito a você… “ repetiu, “não diz…” suspirou. Beijou-lhe a face, ela abriu os olhos e saiu pela porta por onde entrou, voltou ao corredor, devolveu a vela ao seu lugar e, quando olhou para trás, a porta estava lacrada. “Agora eu preciso acordar”, sentou e esperou. Cansada de esperar, adormeceu. Acordou com o alerta vibratório do celular. Olhou à sua volta até reconhecer onde estava. “Que coisa mais clichê”, pensou, “ter um sonho, acreditar que é um sonho mesmo, acordar e então perceber que não era… bom, preciso de curativo para as minhas mãos.”

Introdução

Posted in Passado é história, Reflexos Passados on fevereiro 4, 2011 by Unsere Welten

Você mudaria seu passado se tivesse a chance? De fato, a ideia de poder mudar certas coisas que nos arrependemos é uma solução muito atraente. Mas será mesmo que mudar o passado não afetaria o presente forma tal que na verdade o melhor seria deixar tudo como tinha que ser? Assunto muito bem abordado no filme Efeito Borboleta, é algo que atormentou e continua atormentando geração após geração.

Um momento perdido está realmente perdido porque ele não volta. Ainda que uma situação semelhante ocorra, será sempre um novo momento, afinal, que passou é história e a expressão “recuperar o tempo perdido” não passa de um mito ou uma ilusão. Aprender com os erros do passado de forma a aproveitar melhor o tempo presente e planejar o futuro não é recuperar o tempo perdido, é simplesmente viver o curso natural da vida. Mesmo porque, o presente tornar-se-á passado antes mesmo que possamos refletir sobre ele e, conforme o passar do tempo, amadurecemos em relação a determinado assunto.

Ao olhar para trás podemos perceber como faríamos tudo diferente, mas ao invés de lamentar a impossibilidade da alteração do passado, é mais útil usar a experiência como base para experiências presentes e futuras. Como talvez futuramente eu pense que eu teria escrito esse texto de outra forma e como certamente vou alterar o primeiro parágrafo dele assim que eu terminar o último. E suma, é bem provável que amanhã queiramos fazer diferente tudo que estamos fazendo hoje.

Em certo ponto é bom não ter a autonomia de mudar o passado, pois muitas vezes é fácil perceber que aquilo que parecia tão terrível foi na verdade a melhor coisa que nos poderia ter acontecido ou simplesmente aconteceu para que novos caminhos surgissem à nossa frente e, após o período de turbulência, na calmaria, percebermos que se mudássemos uma vírgula sequer do que já aconteceu poderíamos matar ou alterar drasticamente o brilhante momento que vivemos agora.

Tez branca

Posted in Reflexos Passados on janeiro 19, 2011 by Unsere Welten

Nos caminhos tortos daquele espaço lúgubre, caminhava em passos incertos. Vislumbrou a esquina esperando encontrá-la. Tirou a garrafa de vinho que carregava no bolso de seu paletó. Embriagou-se. Fartou-se daquele líquido tinto como se bebesse até a última gota de sangue do corpo da baronesa. Cambaleou, tombou e caiu em um sonho tórpido que o arrastava para as profundezas de seus mais obscuros desejos.

A visão estava turva, percebia uma forma cheia de curvas, caminhava em sua direção. Podia vê-la, era ela. Distinguia seus rubros cabelos esvoaçantes cobrindo-lhe o rosto em contraste com sua tez branca que quase reluzia sob a luz do luar. Aproximou-se e tomou-a pelas mãos. Fê-lo com sensualidade, ele fixou os olhos em seu seio volumoso e com voracidade tomou-a em seus braços. Amou-a. Amou-a no chão úmido, encardido e marcado pelas orgias embriagadas dos becos daquele lugarejo hostil.

Sugou cada parte de seu corpo até exaurir todas as suas forças e os dois corpos desfalecidos fundirem-se em um só. Desejou-a novamente, queria possuí-la a todo instante, almejava seu coração e ela o entregara. Levantou seu punhal e abriu a tez de seda em seu seio, sujou as mãos e sangue, bebeu-o como vinho e arrancou o que lhe fora dado. Guardou-o como relíquia, possuía o coração de sua amada, ela era sua e de mais ninguém. Acordou entorpecido, ela ajoelhava diante de seus olhos com os cabelos rubros cobrindo-lhe a tez branca da face e tomava-o pelas mãos.

Um oi, um adeus.

Posted in Meu Mundo, Reflexos Passados on janeiro 27, 2010 by Unsere Welten

Ele era uma figura carismática, não é de surpreender que prenda a atenção. Dizem que somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos, e o que ele cativava era sempre algo que o fazia irradiar ainda mais. Não que ele fosse algum ser iluminado, era bem humano como todos nós, mas havia nele algo que não era extraordinário, mas simplesmente difícil de encontrar.

Quando ela o viu pela primeira vez, chamou-lhe a atenção, um rapaz alto, bonito, atraente de certo modo, mas o que fazia o conjunto da obra ficar completo era o sorriso. Não era apenas um sorriso bonito, encantador ou de perfeita arcada dentária, mas um sorriso espontâneo, verdadeiro, capaz de contagiar quem estivesse perto.

Ela logo o esqueceu quando não mais cruzou seu caminho por um longo período. Estava de férias, esqueceu de tudo que deixara naquela cidade. Voltou renovada, e um reencontro a fez lembrar-se daquele sorriso que havia visto há algum tempo atrás.

Era impossível esquecer aquele carisma, e quando ele a abraçava, era o abraço descompromissado mais verdadeiro que já havia sentido. Quando fitou-lhe os olhos, soube que o conhecia mais do que ambos poderiam imaginar. Uma ligação existia, e ela poderia sentir o que se passava por detrás daquelas janelas.

Ela entendia, muito embora não pudesse explicar, tudo o que acontecia e porque acontecia. Entendia, aceitava e aprendia, pois era o que lhe cabia. Estava certa da ausência que chegaria, da data em que ela aconteceria. Quando veio-lhe a notícia em palavras, não foi de todo uma surpresa, apenas a confirmação do que ela já sabia e não sabia porque sabia.

Sua presença alegrava-lhe o dia, como se soubesse e conhecesse, mas não pudesse ler aquela alma misteriosa. Fazia-lhe falta o bom dia de cada dia, um sorriso, um abraço e nada mais. Não era muito o que esperava, de todos os rancores, de tudo esquecia. Ao ver aquele sorriso, ela sorria.

E quando o ciclo fechou e a ausência chegou, ela logo percebeu que não era paixão o que sentia, apenas imensa alegria, ternura eu diria, era amor que lhe floria. Aprendeu muito com ele, sem que ele precisasse ter qualquer consciência disso. Não lhe queria por perto, porque perto toda a graça perderia. Era amor, amor que voa longe, diz oi quando chega, e um abraço, um sorriso e um adeus quando vai embora.

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